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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

A CULTURA EM PORTUGAL - A FALTA DE NOÇÃO DA JOANA LATINO

A Joana Latino. Essa comentadora do programa Passadeira Vermelha para quem vale tudo para que falem nela. Ou então é mais uma que não se apercebe da gravidade daquilo que diz. Se não é porque a Júlia Palha tem um peito "demasiado grande para aquele vestido" é porque os artistas não se mexem como fez o Bruno Nogueira e são uns miserabilistas.

"Os artistas". Essa classezeca, esses caprichosos e preguiçosos. Esses que gostam de viver das luzes da ribalta, dos flashes, dos likes e das capas de revista. Esses que se queixam da vida que têm quando (adoro este argumento) "há quem esteja a passar por muito pior". 

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Não, Joana.

Ser artista é, há anos, criar conteúdo antes de criar conteúdo ser moda. Os artistas precisam dos outros e uns dos outros. Dos sorrisos dos outros. Das emoções dos outros. Ser artista é mais do que viver para agradar. É ter a responsabilidade de poder mudar mentes. De ir mais longe, mostrando novas realidades, perspetivas do mundo e a nossa própria perspetiva. Ser artista é um ato de coragem muito grande. Muito maior do que se sentar numa cadeira a medir os artistas com critérios fúteis. O artista é onde nasce a arte e é a ponte entre ela e o público. E ninguém tem noção da responsabilidade que isso é.

Se não fossem artistas, tu não estavas sentada nessa cadeira. Se não fosse a arte alheia, tu não eras assunto nas redes, sempre acompanhada com a palavra "polémica" a negrito. O teu soro é a arte dos outros. Aliás, o teu soro é tentar destruir a arte alheia com arrogância, como se a tua opinião fosse divina e como se as tuas opiniões fossem as do mundo. Tu és uma necrófaga da cultura. Sempre à espera que haja merda para que os outros se lembrem da tua existência.

Ser artista não é ser estrela. Ser artista não é ser famoso. Há várias áreas na arte e não se pode resumir a classe aos que só aparecem na televisão e as pessoas reconhecem na rua. A cultura não é supérflua. É nutriente essencial para a vida de um país e de cada indivíduo. A cultura define personalidades. Constrói-as. 

O Bruno Nogueira fez um trabalho belíssimo no Instagram, tirou do tédio muita gente que estava em confinamento. Conseguiu fazer o impossível e conquistou-nos a todos. É injusto utilizar a obra de arte dele para criticar a arte de todos. Para criticar a arte de quem não a pode partilhar. Porque nem todas as artes se medem por visualizações. Os artistas não são só os teus colegas de trabalho da televisão, nem só os que vão à Gala dos Globos de Ouro.

A arte pode entreter e ser didática ao mesmo tempo. Pode ser apenas uma delas. As intenções são infinitas. E o objetivo é chegar às pessoas. Se não fossem os artistas, a vida era robótica. Comeríamos, trabalharíamos e dormiríamos apenas. Deixaríamos de responder à pergunta "o que fazes nos tempos livres", porque os tempos livres de toda a gente iriam ser uma seca. E são os artistas que fazem esse tempo. As opções reduziram-se com a pandemia, por isso, e por uma questão de lógica, safaram-se melhor os que vivem das redes sociais, porque o feed do Instagram das pessoas não entra em confinamento. Os teatros, os museus, as livrarias e as salas de espetáculo entraram. Fecharam. Os artistas que deles vivem ficaram com as vidas em suspenso.

Joana, houve artistas que passaram fome. Como é que é possível que consigas dizer que eles não fizeram por se mexer? Como é que achas que eles se sentem ao ouvirem isso? De ti que és uma privilegiada, que és em parte paga para comentar a desgraça deles (que muitas vezes só é desgraça na tua cabeça)? Com o confinamento, os artistas quiseram trabalhar e não puderam! E enquanto isso acontecia, a tua cadeira esteve aí à tua espera. Com garantias. Sem a possibilidade de a poderes vir a perder. Põe-te no lugar e imagina a impotência de alguém que precisa de pessoas para sobreviver, ter as pessoas todas sem poder sair de casa. 

A arte tem futuro indefinido. Estamos a caminhar para o desconhecido. E tu continuas aí sentada a destilar veneno. Sem noção, sem o mínimo de escrúpulos. Não vale tudo para ser notícia. E essa postura em relação à cultura não te fica nada bem. Porque muito do que és hoje deve-se à cultura que consumiste. Deve-se àquilo que os artistas fizeram e deixaram ao teu dispor. Tu não estás a cuspir no prato que te deu de comer. Tu estás a cuspir na panela de onde todos se servem.

E isso é simplesmente nojento. A todos os níveis. 

 

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