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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

ENTREVISTA ANA GUERREIRO: "O lugar das pessoas é onde elas quiserem. Não podemos continuar a atribuir padrões comportamentais a homens ou a mulheres."

Conheço a Ana Guerreiro há algum tempo e acho que sempre senti que um dia iríamos fazer alguma coisa juntos. Ela é muito entendida em matérias do meu interesse. Conhece os conceitos atuais, analisa a sociedade como ninguém e tem uma visão realista e crua da realidade atual. A Ana é uma defensora acérrima da igualdade de género e luta por uma sociedade equilibrada nesse sentido. Já foi convidada várias vezes para comentar, atendendo aos seus estudos, situações relacionadas com a desigualdade em vários programas de televisão e reportagens.

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É licenciada em Criminologia desde 2012 pelo ISMAI (Instituto Universitário da Maia), tendo concluído também o Mestrado em Medicina Legal pelo ICBAS/UP. Atualmente está a terminar o Doutoramento em Criminologia pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP).

O seu percurso profissional iniciou-se em 2014 na UMAR - União de Mulheres Alternativa, uma organização feminista que luta pela igualdade de género e, em específico, no combate à violência de género e doméstica. Em 2015 foi convidada a integrar o corpo docente da Licenciatura em Criminologia do ISMAI, no qual se mantém. Passou ainda pela Escola de Criminologia da FDUP, enquanto técnica responsável por projetos de investigação, fase que considera muito importante na sua vida. A a paixão da Ana pela academia e pela investigação iniciou-se, ainda, enquanto estudante por ter estado à frente da criação do Núcleo de Estudantes em Criminologia do ISMAI e reforçou-se também pelo percurso na UMAR.

Atualmente dedica-se à investigação académica e os estudos de género, crime e violência são temas vertebrais.

Assume-se como feminista, ativista e defensora dos Direitos Humanos e da igualdade de direitos e sente-se muito feliz e realizada por poder contribuir, neste momento mais em termos académicos - dando visibilidades às desigualdades e aos problemas sociais existentes –, para o combate de todas as formas de violência e na promoção de um Estado igualitário e livre de violência.

Ainda há quem não se aperceba das desigualdades de género evidentes na nossa sociedade?

Sim, há. Infelizmente. Mas acredito que a perceção das desigualdades por parte das pessoas seja um processo. Eu também não cresci sabendo identificá-las de imediato. Aliás, eu própria veiculava – e sem saber - desigualdades, quer nos comentários ou opiniões que dava, quer nas minhas ações. Mas fui-me apercebendo ao longo dos anos que esse não era o caminho que eu queria. Deparei-me com situações, comentários e ações que me incomodavam e que de início não lhes sabia atribuir nome. Com o tempo, tudo foi ficando mais claro. Daí que acredite que a perceção das desigualdades existentes (quer de género, quer de direitos no geral), dependa de um processo evolutivo e educacional e que as pessoas com que nos vamos cruzando ao longo da vida contribuam, e muito, para essa clarificação.

Consegues dar exemplos específicos com base em números?

As investigações nesta área ao longo dos últimos anos têm aumentado, o que é um bom sinal já que permite desmascarar uma realidade há muito oculta. Se pensarmos nas diferenças salariais entre homens e mulheres, dirias que a diferença ainda seria, em 2019 (últimos números conhecidos) e em média, de 18%? Mas se olharmos para o trabalho pago (o formal) e o trabalho não pago, aquele que é realizado com as tarefas domésticas e que, não raras vezes, não damos a devida importância, a realidade é ainda menos conhecida. As mulheres tendem a gastar, em média, mais 4 horas / dia em tarefas domésticas do que os homens.

Começaste a dar aulas e deves ter assistido a várias situações de violência e discriminação no geral, entre os teus alunos. Interferes nesses casos?

Não foi no ensino superior que me deparei com mais situações. Não quer dizer que não tivesse conhecimento de uma ou outra situação que fosse acontecendo. Mas presenciar, nunca me aconteceu. Tive sim muito contacto com diversas situações no âmbito do meu trabalho na área da prevenção da violência de género em contexto escolar na UMAR em que, contactando com jovens do ensino básico e secundário, conheci uma realidade que achava não ser possível em pleno século XXI. Jovens que transmitiam ideias e conceções repletas de estereótipos de género e que poderiam conduzir a situações de violência e, em alguns casos, jovens raparigas que acabavam por partilhar num ambiente mais privado que eram vítimas de violência ou que, até mesmo, as mães eram vítimas de violência em casa. Não há uma fórmula correta de lidar com estas situações, quer de discriminação, quer de violência. A verdade é que sempre que ouço ou presencio uma situação que considere que viola os Direitos Humanos, não me coibo de agir, quer interferindo diretamente, quer alertando as entidades responsáveis. Acredito que cada todos(as) temos uma missão (ou várias) nesta vida. O combate à violência e às discriminações é uma das minhas missões.

Há determinadas atitudes que nós temos que achamos que são inerentes à nossa vida em sociedade, mas depois vamos a ver e são altamente discriminatórias. A maior parte das pessoas não as reconhecem nem as assumem. Como é que se explica a um machista o que é a masculinidade tóxica? Como é que se explica a uma pessoa que a construção de grande parte da sua personalidade é baseada em atitudes discriminatórias? E como é que se passa essa informação para uma sociedade que está agora a ser educada para determinados valores e grande parte dela não os está a aceitar?

Não diria que grande parte da sociedade não está a aceitar. O trabalho está a ser feito e os resultados começam a surgir mas vai levar o seu tempo. O trabalho de prevenção e de (re)educação leva tempo, o impacto é a longo prazo. Durante muitos anos não foi esta a perspetiva que se adotou. Queríamos que os resultados fossem rápidos e não se atuava na origem do problema. Daí que agora nos pareça que os resultados tardam em surgir. A melhor tática para lidar com a desigualdade de género e com os diversos tipos de discriminação é falar na sua existência. A partir daí todo o trabalho que for feito, ainda que muitas vezes não seja compreendido, já entra para o saldo positivo. Diria que a melhor forma de explicar as masculinidades tóxicas e as atitudes discriminatórias é dar exemplos concretos, pôr o dedo na ferida, e desconstruir ao máximo as ideias pré-concebidas. Questionar as vezes que forem precisas a razão pela qual as pessoas têm essa opinião / perspetiva e tentar que se coloquem no lugar do(a) outro(a), que é parte mais difícil. Depois, um trabalho de educação para a cidadania é essencial e deve começar o mais cedo possível. Em casa, na pré-primária, nas escolas. Deve ser transversal a todos os contextos e deve envolver todas as pessoas implicadas na educação de uma criança, quer sejam pais e mães, docentes e restante família.

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Consegues dar exemplos de situações ou expressões do quotidiano que te irritem particularmente e explicar a gravidade de cada uma delas?

Existem muitos! E muitas vezes não nos damos conta do que realmente significam. O primeiro de todos é a típica expressão “quanto mais me bates, mais eu gosto de ti”, que é uma legitimação clara da violência. Significa que bater noutra pessoa é uma forma de mostrar que se gosta dela, e está a passar a mensagem errada porque amar alguém significa exatamente o oposto. Nesse seguimento surge-me outra “entre marido e mulher não se mete a colher” que serve tantas vezes como desculpa para, numa situação de violência, as pessoas nada fazerem. Depois, temos ainda expressões populares que revelam claramente a sociedade patriarcal em que vivemos: “onde há galo, não canta galinha” ou “homem na praça, mulher em casa”. Estes ditados contribuem para mantermos comportamentos que já deveriam ter sido alterados há muito tempo. O lugar das pessoas é onde elas quiserem. Não podemos continuar a atribuir padrões comportamentais a homens ou a mulheres.

Consegues explicar por que é que comentários que aquele polémico concorrente do Big Brother fez aos seus colegas são graves e por que é que precisam urgentemente de acabar? Por que é que a desculpa do "é a brincar" cola na maior parte das vezes?

Confesso-te que não acompanhei a situação, ainda que tenha lido algumas coisas sobre o que aconteceu, inclusive o teu artigo. A verdade é que é recorrente este tipo de situações (mais ou menos relacionadas) ocorrerem em programas televisivos deste género. Tenho em mim que, ainda que sirva para se abordar o tema da homossexualidade, não é nem o espaço, nem a forma mais correta de o fazer. Até porque, o que geralmente acontece, é que são exatamente os comentários e as opiniões negativas que prevalecem e marcam toda uma parte da população que acompanha estes programas. Para além disso, não há um trabalho de desconstrução daquelas ideias. E repara: o que se passa ali dentro não é mais do que o retrato do que se passa cá fora. E ainda há tanto a fazer! Mudar conceções machistas, homofóbicas, lesbofóbicas, racistas, etc., demora o seu tempo e exige um trabalho muito grande. A comunicação social tem o poder de realmente transmitir coisas boas, mas também toda uma parte que pode ser muito negativa.

Achas que há alguém ou algum grupo social a quem a igualdade de géneros não dê jeito?

Se poderá limitar a ascensão de algumas pessoas ao poder e, eventualmente, lhes retirar alguma legitimidade e / ou credibilidade, talvez. Mas a igualdade de direitos entre homens e mulheres só tem vantagens tanto a nível social, pessoal, laboral e ainda económico. Significa isto que uma vida em igualdade contribuirá para um maior e melhor nível de educação, criação de equipas especializadas, multidisciplinares e motivadas no local de trabalho, afetação dos recursos no âmbito familiar e, por isso, melhor uso dos tempos e, consequentemente, maior tempo de lazer. Para além disso, repercute-se num aspeto essencial: o crescimento económico.

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Há assentos parlamentares descaradamente inimigos da igualdade no geral. Qual é o futuro deles e de que forma poderão travar a luta contra a igualdade de género?

Há um receio generalizado e real do medo da ascensão da extrema-direita no mundo. Portugal não é exceção e temos exemplos claros disso, que bem conhecemos. Uma direita populista. O que se tem visto nos últimos tempos (semanas) é mais do que razão suficiente para temer o pior, quer seja pela discriminação de grupos étnicos que sempre foram julgados pela sociedade em geral (e continuam), quer seja pela defesa de uma figura jurídica que é só, exatamente, aquilo que se pretende combater. O populismo penal não pode vingar. Em termos de igualdade de género, o crescimento desta ala sociopolítica poderá também ter os seus contras já que essa mesma ala apresenta ideais pró-fascistas e que correspondem a uma parte do que a nossa sociedade acredita. Não podemos tolerar comportamentos deste género em nenhum setor, muito menos no político que tem uma forte influência no povo.

As opiniões dividem-se relativamente às manifestações feministas. Achas que o choque é obrigatório para a mudança?

Não que seja obrigatório, mas contribui para que a sociedade veja a real dimensão do problema. Lembras-te daquele menino que apareceu morto numa praia na Turquia em plena crise migratória? Pois bem, muito se falou acerca das pessoas refugiadas e da real dimensão dessa crise. Os comentários eram de uma violência extrema, de uma discriminação e desrespeito pelos direitos humanos inigualável. A partir do dia em que aquela fotografia apareceu, a perceção das pessoas sobre o que se estava a passar alterou-se. Os movimentos feministas não são mais do que chamadas de atenção para os problemas que os diferentes géneros vão sofrendo. Quando nos anos 70 e 80 se começou a trazer a público o que se passava nas quatro paredes do lugar onde é suposto sentir-se maior segurança, o rumo alterou-se, iniciando-se uma desocultação do fenómeno e uma luta pela criminalização da violência doméstica.

O mundo está a mudar cada vez mais e cada vez mais depressa. No tempo dos nossos avós, possivelmente, as grandes mudanças eram mais distribuídas no tempo. Nós habituamo-nos a novas realidades todos os dias. Como é que vês o mundo daqui a cinco anos?

Cinco anos é muito pouco tempo para alcançarmos grandes feitos. Ainda para mais na situação atual em que vivemos, que só faz com que se agudizem as desigualdades sociais. Ainda assim, estou confiante de que não haverá uma regressão dos direitos já alcançados até então e que uma efetiva educação para a cidadania, através de uma prevenção da violência e promoção dos Direitos Humanos, possa ser implementada de forma sistemática em todo o país. Espero ainda que a luta pela redução da extrema-direita, pelo menos em Portugal, possa ter os seus efeitos e que, claro, o povo consiga caminhar, um pouco mais, para o entendimento de que somos todos(as) iguais e merecedores(as) de igual respeito, direitos e oportunidades, independentemente do sexo, orientação sexual, raça, condição social e económica, etc. 

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Espero que tenham ficado mais esclarecidos depois das explicações da Ana. Quando converso com ela, apercebo-me sempre de detalhes do quotidiano que estão tão impregnados na sociedade que as pessoas não têm consciência do quão discriminatórias são. Já tivemos conversas muito interessantes relativas a este tema.

A luta da Ana pela igualdade vai continuar e honestamente sinto a falta de mais pessoas como ela. A Ana é aquilo que eu considero uma pessoa elucidada. Gosto de conversar com pessoas que entendem melhor do que eu determinados conceitos. Há muito a aprender com ela. E espero que esta entrevista vos tenha ensinado alguma coisa.

Muito obrigado, Ana! E um bom trabalho para ti!

 

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