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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

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POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

ENTREVISTA BETAS DESCONTROLADAS - O NOVO FENÓMENO DO INSTAGRAM

As Betas Descontroladas são o novo fenómeno do Instagram, com mais de 15 mil seguidores. Já não me lembro de como encontrei o perfil delas, mas sei que foi amor à primeira vista. São assumidamente betas, ou seja, daquela comunidade que trata os pais dos amigos por tio e tia e com outras características que conhecemos bem. 

Elas aproveitam essas características, dos nomes até às expressões, para fazerem sátira de temas relativos à sexualidade, que muitas vezes são tabu na sociedade. Como devem calcular, é a mistura perfeita. Se há coisa que eu admiro nas pessoas é a capacidade de brincarem ou gozarem com elas mesmas e as Betas Descontroladas gozam com o próprio meio de uma forma absolutamente inteligente.

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Em momento algum da entrevista em fiquei a saber quem elas eram. Apenas sei que não são nem da Foz do Douro nem de Cascais. Depois de algum tempo a conversar, apercebemo-nos de que "talvez tenhamos conhecidos betos em comum". E foi o máximo que fiquei a saber delas. Claro que soube outras duas coisas essenciais: são muito acessíveis e falam abertamente sobre qualquer assunto.

A entrevista começou precisamente comigo a tentar perceber quem elas eram.

Quem são as Betas Descontroladas?

As Betas Descontroladas são uma página de pura sátira social com um foco especial (embora não reduzidas a) nos temas da sexualidade.

Qual é que vocês consideram ser a definição de "beto" e por que motivo utilizaram este grupo social como protagonista da vossa página? 

Nós somos betas, foi assim que nascemos e fomos criadas. Só faria sentido falar do que conhecemos melhor, que é o meio em que crescemos. Os amigos que conhecemos, as famílias que temos, as realidades que acompanhámos mais de perto. Obviamente, e achamos que se nota, temos mais mundo do que isso, e conhecemos, frequentamos e envolvemo-nos em outros meios. Mas só temos “legitimidade” para falar do que vivemos, não faria sentido escrevermos sobre a sexualidade na cultura nórdica… Por muito que a estudemos, não foi a nossa realidade. Quanto à definição de “beto”, não nos achamos no direito de definirmos o que é. Nas perguntas que nos fizeram no dia em que atingimos 10 mil seguidores, pediram muitas vezes essa definição e nós não respondemos. Precisamente porque não somos uma “Bíblia” do que é e deve ser beto. Além disso, estamos cá para tentar libertar os betos das “caixinhas” em que foram desde sempre colocados e não para as tornar mais castrantes ainda. 

Eu não sei se vocês sabem, mas eu trabalho no Club Alfândega aos fins de semana e em situações em que não existe pandemia. E foi muito curioso para mim ver que vocês fizeram referência à nossa discoteca para uma das vossas histórias. Queria perguntar-vos por que motivos é que vocês escolhem Caminha e Moledo para passar férias.

Na Alfândega de Caminha? Ah, que graça! Já estivemos em Moledo com toda a betaria do norte e aquilo é do melhor que há. Alfândega é o Bliss do norte de Portugal.

Falemos agora da vossa forma de falar. Está a ser cada vez mais parodiada. Dou-vos o exemplo da Inês Aires Pereira, que goza imenso com isso. É uma espécie de dialeto inglesado rico em estrangeirismos, adjetivos e interjeições. Fala-nos um pouco da vossa forma de falar.

Sim, os betos são muito parodiados, mas não são bem representados - a nosso ver - nos meios de comunicação, sketches, etc. A Inês Aires Pereira é uma exceção (porque cresceu num meio beto e por ser uma atriz exemplar). Mas, falando no panorama geral, os betos são muito mal parodiados. As novelas, então, são um terror. Tudo o que retratam dos costumes, dos nomes, da forma de falar e estar…. nada disso corresponde à realidade e, portanto, não tem piada.

Qual é o vosso critério para chamar tio e tia a alguém? É a proximidade? É o aperceberem-se ao longe de que a pessoa é beta? Vocês tratam alguém por "Senhor Bernardo" ou "Dona Benedita"? Isso existe? Expliquem-me um pouco mais desta "consanguinidade" de que vocês falam abertamente na vossa página.

Como dissemos, não queremos ser a “Bíblia” do que é ser beto, nem nos interessa tanto esses contornos, é mais importante para nós os temas de sexualidade e identidade… Mas podemos adiantar que não, os betos nunca chamam “senhor Bernardo” ou “Dona Benedita”. E que não tem que ver com consanguinidade. Num ambiente profissional, trata-se pelo nome próprio. Num ambiente de proximidade, por tio e tia.

Acho que uma das coisas que mais me fez gostar da vossa página é, sem dúvida, o facto de utilizarem o vosso meio social para esclarecer mitos e fazer críticas relativamente a algumas situações da atualidade relacionadas com o sexo, com um humor extremamente inteligente. Por que é que sentiram urgência em quebrar esses tabus? Assumem-se como feministas?

Achamos que estamos em 2020 e os estigmas da sociedade em geral ainda são imensos e ridículos. É absurdo um homem ir para a cama com muitas mulheres e ser “patrão” e uma mulher fazer o mesmo e ser “puta”. É ridículo ainda haver problemas de cada um ser e amar quem quiser. Claro que estamos melhores e a evoluir, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Principalmente para as mulheres e para a comunidade LGBTQ+, o desafio é maior e mais complexo. Mais uma vez, focamo-nos no meio que conhecemos melhor e na realidade em que crescemos: os betos. Apesar dos temas que abordamos, a nosso ver, serem transversais, parece haver ainda mais castração e estigmas no nosso meio. Por exemplo, no meio dos betos é muito mal visto (ainda) viver juntos sem casar…. A realidade trans é mínima e muito mal conhecida. E por aí fora…. É um meio com mais tabus e, portanto, com menos tolerância. Somos feministas sim, acreditamos na igualdade social, política e económica dos sexos.

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Sem dúvida que vocês dão destaque à masculinidade tóxica e à liberdade sexual das mulheres. É por isso que a maior parte das pessoas que vos põe likes é do sexo feminino? Por que é que acham que os homens fogem a estes conceitos?

Masculinidade tóxica: mais um problema de toda a sociedade, mas do meio beto num peso e medida superiores…. Principalmente no meio beto rural (os chamados “agrobetos"). Enquanto as mulheres estão mais cientes dos problemas que existem e estão na luta pela libertação e emancipação, os homens só agora estão a começar a ficar alerta para estes temas… Para eles, era normal serem impedidos de chorar, e só agora estão a perceber: “espera aí… porque é que eu é que tenho de saber tudo na cama? Porque é que eu não posso ficar magoado, ofendido ou sentido? Porque é que não se fala de eu também ter de dar consentimento? Porque é que eu não tenho legitimidade para denunciar um assédio que sofri?”... Existe ainda uma perceção em alguns homens de que “acho bem que elas se emancipem e sejam feministas, mas o assunto não é meu, eu não posso fazer nada por elas"... E isso não é de todo verdade.

Eu acho que a vossa intenção é clara e dá para entender bem a forma como a conciliam com o humor. Acham que o facto de utilizarem o humor para transmitir uma mensagem resulta melhor? Não acham que possa haver quem pense que vocês estão a parodiar aquilo que no fundo é a vossa própria intenção?

O humor (e, neste caso, a sátira social) é a melhor forma de dizer coisas “duras” ou de fazer “críticas” de forma positiva. Nós não queremos dar palestras, nem fazer campanha política. Queremos fazer-vos rir e, assim, fazer-vos pensar. Se algo mudar, maravilhoso. Se nada mudar, estamos a fazer rir. Nós não queremos apontar dedos, temos a convicção de que as pessoas ainda falam de forma tóxica por não terem informação, por nunca ninguém lhes ter explicado. Quem não tem um passado? Quem não disse no passado algo sexista ou racista que, mais tarde, percebeu as consequências e se arrependeu tremendamente? Importa é informar-se, ler, aprender e corrigir.

Alguma vez vos ofenderam pelo trabalho que fazem? Alguma mensagem ou algum comentário? Quais são os argumentos dessas ofensas? Como reagiu a comunidade beta à vossa página?

Sim, há algumas pessoas com resistência. No entanto, até hoje sempre foram educados e respeitosos na forma como fazem críticas e a maioria chega por mensagem privada e não na própria página (vê-se mesmo que são betos). Existe ainda muita gente que pede temas, diz que falta falar de A ou B ou C por não perceberem que não podemos abordar tudo de uma vez só… Mas isso é bom porque a melhor coisa de tudo isto é como as pessoas têm sentido a página como delas e, portanto, nos contam histórias, traumas e experiências muito íntimas. Escrevem-nos mensagens e emails comoventes, extensos, que nos motivam e ajudam. Muitas dizem que lhes mudámos a visão das coisas, que a crónica vem mesmo a calhar para resolverem o seu problema, agradecem-nos muito. E nós agradecemos de volta, porque toda esta partilha - além de nos motivar - alimenta-nos com dados que não tínhamos, perspetivas que ganhámos, etc. Achamos que a reação foi ótima! Num mês atingimos 10 mil seguidores e mais de 1 milhão de impressões numa só semana…. É surreal! Ao mesmo tempo, sabemos que a maioria dos que nos visitam não nos segue. Porque “parece mal” ou porque não estão certos que estejamos “na equipa deles”. É natural. Mas acreditamos que, com o tempo, se percebam de que viemos em paz.

Vocês optaram por não dar a conhecer ao público a vossa identidade. Isso é marketing ou é alguma forma de se salvaguardarem?

Não te preocupes, toda a gente nos conhece. O anonimato é importante para nós porque nos garante liberdade criativa. Queremos poder pôr o dedo na ferida e falar de tudo sem limites. Mas também é uma estratégia no sentido em que torna mais confortável para toda a gente comentar, identificar-se e escrever-nos as suas histórias…

Quais são os vossos betos famosos preferidos?

Migues Esteves Cardoso. Sobre ele, tudo o que se diga é pouco. Escritor e cronista extraordinário, como já não se fazem… É um tio fascinante. O Ricardo Araújo Pereira (que vai odiar ser referido como beto) é um betinho de colégio que quer fingir que não é, mas é o máximo. Um homem de uma inteligência, cultura geral, mundo e graça completamente fora do comum. É épico. A Bumba na Fofinha (Mariana Cabral) tem pilhas de graça e é extremamente inteligente. Também não gosta de ser identificada como beta, mas os Seruya são do melhor que há. A Rita Blanco. Um exemplo de mulher, uma grande inspiração, uma humildade e inteligência acima da norma. Que mulherão e que exemplo de feminista! A Zezinha Nogueira Pinto, que á não está entre nós, e sabemos que nos arriscamos em usar o nome dela, porque o marido é uma figura polémica. Mas temos de a referir porque tem a sua individualidade por direito. Foi a primeira mulher líder parlamentar em Portugal, era de direita e nunca teve problemas em ir para onde o seu trabalho desse frutos. Era guerreira de armas, tinha uma voz muito ativa, foi uma das responsáveis pela revitalização da Baixa-Chiado (em Lisboa), fez um trabalho tremendo na Santa Casa da Misericórdia e era muito dada às causas sociais. Outro foco do seu trabalho era o investimento na Cultura e nas Artes. 

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As Betas Descontroladas prometem continuar a publicar conteúdo inclusivo, representativo e de pessoas para pessoas! É um grande gosto entrevistar quem defende este tipo de causa. Agradeço-lhes, desde já, pela causa, genuinidade e naturalidade durante toda a entrevista. Foi um enorme gosto! E espero poder continuar a entrevistar quem dê a cara por formatos deste género! Muito obrigado, Betas!

 

 

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