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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

ENTREVISTA CÂNDIDA E INÊS RAMOS MATOS: As irmãs caminhenses que estiveram confinadas fora de Portugal

A Cândida e a Inês Ramos Matos são irmãs. Duas jovens caminhenses, diferentes na atitude, mas com traços faciais que não enganam ninguém. Admiro o sentido de humor delas e por isso sigo-as no Instagram e ria-me com as aventuras delas na Austrália. São amigas e têm uma cumplicidade rara nos dias de hoje. 

Resolvi entrevistá-las e para contarem um pouco da história delas. Elas emigraram e, quando a pandemia rebentou, elas não estavam em Portugal. Elas não só estavam longe, como viram o mundo parar longe. Viram os aeroportos a fecharem-se em frente aos olhos delas. Passou a ser elas lá e a família e os amigos cá. O corpo na Austrália e o coração na Europa, em Portugal. 

Em momento algum da entrevista eu senti tristeza no discurso delas. Criámos um grupo no WhatsApp que neste momento ainda apita com os mais variados assuntos e, a determinada altura, quando dei por mim, ontem já eram elas que me faziam perguntas a mim sobre a minha vida. Este grupo de WhatsApp não parou de tocar, não teve descanso. Isto porque a Cândida continua na Austrália e enquanto ela dorme, eu e a Inês estamos acordados e vice-versa. 

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Podem começar por explicar o que é que vos levou à Austrália (não vale dizer que foi um avião). Tinham já trabalho antes de embarcar ou foram às cegas?

Inês: Desde pequena que tinha o sonho de irmos um dia os quatro para lá viver (quem não queria). E assim foi. Só que quando era altura de ir, eu queria e não queria. Tinha e tenho um namorado cá, então as coisas complicaram-se. Acabei por ir claro, com 17 anos e menor de idade, que remédio tive. Da primeira vez que fui estive lá três meses e acabei por voltar para Portugal e só aí me tornei independente. Em relação a trabalho, no meu caso, trabalhei em limpezas e fui ao mesmo tempo que a minha mãe. A Cândida arranjou trabalho primeiro, mas trabalhava para uma empresa, ou seja, ganhava menos do que se fosse ela a ser a patroa dela mas depois quisemos sempre mais e mais e começamos nós a procurar o nosso trabalho e aí sim, juntamo-nos as duas e passámos a trabalhar muito.

Cândida: Eu nasci na Austrália, mais propriamente em Sydney há quase 30 anos. Fui embora para Portugal quase a completar 2 anos. A minha vida, maioritariamente, foi em Portugal mas como se costuma dizer: filho pródigo à casa volta. A vontade de realmente conhecer o meu país era enorme até porque a Austrália é um destino de sonho de qualquer um (a não ser que gostem de andar petrificados com o gelo). Anos e anos a perguntar consequentemente aos meus pais quando é que um dia iríamos voltar. Esse dia tinha finalmente chegado e primeiro veio o meu pai e depois eu. Também já estava a ficar saturada do dia a dia em Caminha, certamente por não ter quase vida própria, um trabalho em que trabalhas (está claro) e tens as tuas folgas e / ou fins de semana. Sei que nos dias de hoje não podemos exigir nada e temos que nos submeter ao que nos aparece, mas, como qualquer ser humano, chega a um dia que não mata mas corrói. Digo já e repito que detestei a viagem, primeira paragem foram quatro horas, a segunda paragem entre nove e dez e a final treze. Não me levantei nem uma única vez, eu só tinha medo que o avião caísse, só via gente de pé e rezei a toda a hora para que todos se sentassem de uma vez. Eu permaneci sempre sentada e as dores de desconforto nos músculos e ossos já eram tantas que não tinha mais posição para estar... E a comida? Nossa senhora do refogadinho de frango com massinha e o Santo António do polvinho grelhadinho... Andei meses sem por a mão no caril. Enjoei de tal maneira que só em ouvir o nome do ingrediente punha-me logo o sistema digestivo a mil. A viagem foi péssima, tirando o meu colega do lado do avião que era um querido, ressonava muito baixinho...

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Como foi a sensação quando se aperceberam de que havia um vírus que podia pôr em risco tudo o que vocês conheciam como normalidade? E qual foi a primeira coisa em que pensaram quando foi anunciado que ele já tinha chegado à Austrália?

Cândida: Não liguei muito no início. Só que comecei a ver muitos asiáticos de máscara e foi aí que me apercebi de que aquilo era um assunto sério. Passado um mesinho depois de anunciarem a existência do vírus, as nossas patroas começaram a suspender o nosso trabalho e foi por aí que começámos a ficar com medo. Fiquei com 95% do trabalho parado. Um mês assim, e quando tinha que sair à rua, quase não me sentava nos autocarros nem nos comboios. O álcool em gel, em vez de o pôr na mochila, para não dar trabalho de tirar a alça, abrir fecho, por a mão potencialmente infetada dentro do bolso e etc., punha onde as mulheres de antigamente guardavam o dinheiro. Para todo o lado a que eu ia, chegava ali, não estava com o trabalho da mochila, sacava o gelzinho e assim andava sempre desinfetada das mãos. As compras, sempre que chegava a casa com elas, passava um paninho com algo, ou se desse para as lavar melhor. Quanto à roupa, chegava a entrada da porta, deixava os sapatinhos fora e a roupa ia para a lavandaria de imediato. Máscaras, um horror. Andei uma única vez com ela e foi questão de horas.. estava a ver que tinha que comprar uma bomba de oxigénio para quando vestisse a máscara não me faltasse o ar. E desde já dou os meus parabéns ao médicos enfermeiros que tiveram e tem que andar com ela todos os dias. A maioria das lojas dos shoppings fecharam por tempo indeterminado. Chegámos a ir várias vezes ao shopping para fazer compras de bem essenciais e posso dizer que o povo australiano cumpria com a regra. Via-se uma ou outra pessoa, mas está claro, era como nós, iam fazer as suas compras de necessidade. No pico da pandemia, onde na TV não passava mais nada a não ser o tema da Covid-19, as ruas ficaram fazias, shoppings, autocarros, comboios, cafés, restaurantes, ginásios... estava tudo vazio! Tirando os parques em que havia gente a fazer exercício e a passear o seu animal de estimação. O governo autorizou que pudéssemos fazer exercício ao ar livre com as devidas precauções. Graças a Deus, mais ou menos passado um mês, as nossas patroas voltaram a ligar, o governo deu autorização que já podíamos sair à rua e voltar aos nossos trabalhos mas com cuidados: máscara, luvas e distanciamento.. Estamos em setembro e eu ainda tenho patrões a trabalhar em casa, claro que há trabalhos e trabalhos, uns por conta própria e outros por conta de outrem. Quem tem possibilidades fica em casa, quem não tem, cuidados redobrados e toca a trabalhar porque a vida é mesmo assim. Nesta fase notei que o povo australiano foi cumpridor, uma vez que disseram que já podíamos sair à rua, muito lentamente os cafés começaram abrir, restaurantes, ginásios tudo com uma lotação máxima. A partir daí acho que a malta nova começou por se “esticar” fazendo ajuntamentos perto da praia de Bondi, local onde podem beber álcool, fazer BBQ e estar em conjunto. A polícia começou a atuar com coimas. Neste momento não tenho ouvido mais notícias dessas. Até porque onde passo e vou, as pessoas agem como se nada fosse.

Inês: Sempre fizemos a vida normal, só paramos um mês (mas saíamos à rua na mesma). A televisão assustava, respeito o vírus mas do nada já ninguém morria de cancro nem de outra causa. De repente, passou tudo a ser culpa do novo coronavírus. Lembro-me de ver uma notícia de uma senhora com 98 anos e a causa da morte dela foi o Covid-19, até a minha mãe disse “não há possibilidade de ser da velhice?” Acredito que o vírus tenha ajudado à morte mas não foi a principal causa. Houve uma altura em que me começou a doer a garganta e eu pensei logo que tinha apanhado o vírus e entrei em pânico. Aquilo já assustava de tal forma que uma pessoa pensava logo no pior. Confesso, não usei máscara nenhuma, só precisamente na altura em que me doeu a garganta. Pensei muitas vezes na possibilidade de esta pandemia ter sido planeada por alguém ou por uma entidade e qual o intuito da sua criação. Surpreendida fiquei com o facto de me dizerem que em Portugal estavam um caos, que ninguém saía à rua e nós lá andávamos na maior.

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Inês, em relação a ti que viveste nas duas realidades, quais foram as principais diferenças que notaste entre o comportamento vivido na Austrália face à pandemia com o panorama europeu, mais especificamente em Portugal?

Inês: Uma coisa boa da Austrália é o facto de tomarem decisões logo na hora. Quando este assunto do vírus rebentou, fecharam logo fronteiras, só havia aviões de mercadoria a circular dentro do país. Eu por exemplo tive de esperar cerca de três ou quatro meses pelo meu voo. Em relação aos infetados, não podíamos comparar os casos entre Portugal e Austrália porque Portugal tinha mais infetados que Austrália inteira. Há de tudo não é? Há pessoas que respeitam há outras que não mas na maioria o povo australiano respeitou as regras. Em Portugal, na minha opinião foi uma rebaldaria autêntica porque não começaram a tomar medidas drásticas e as coisas foram-se complicando. Deixo apenas uma mensagem a alguns adolescentes, aqui em Portugal, que deviam ter dois dedos de testa porque na cabeça deles o vírus não lhes pega e continuam a comportar-se como se se tivessem esquecido de que estiveram meses confinados. Eu sei que é difícil, o mundo parou por causa disto e acredito na quantidade de pessoas que ficaram depressivas mas são fases que teremos que ultrapassar e respeitar o que é dito. Mas por outro lado há tanta coisa que dizem que não são coerentes. Como é possível o mundo estar a passar por isto? Terá isto sido tudo feito? São questões que eu sempre terei.

Sabes que no panorama europeu, Portugal foi dos países que melhor se portou nos primeiros tempos, ainda assim... Cândida, tu que estás de fora, como é que vês, comparando à realidade australiana, o que se está a passar em Portugal?

Que está bem. Do que vejo no Facebook, Instagram, algumas notícias (muito poucas, a não ser do Caminha2000), mas estou muito fora do que se passa mesmo em Portugal. As pessoas foram de férias na mesma, as máscaras apareceram nas fotografias, almoçam e jantam nos restaurantes, os jovens quando querem fazem o tal ajuntamento nas casas uns dos outros porque os bares e discotecas estão fechados. Só não acho bem irem para o Facebook (lá está, o meu único contacto com Caminha e Portugal) quase a citarem os nomes das pessoas porque a fulana não tinha a máscara. As pessoas deviam deixar de ser mesquinhas. 

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O vosso trabalho é diretamente relacionado com a higiene. Sentiram diretamente que foi um sector ao qual as pessoas recorrem hoje em dia com muita mais frequência? Esse tipo de serviços tornou-se consequentemente mais caro?

Inês: Tirando que nos pedem para reforçarmos as limpezas onde põem mais as mãos, de resto é igual porque o nosso produto “mágico” é mesmo a lixívia. Lavar uma casa de banho, por exemplo, sem lixívia, para mim, é como se não a tivesse limpo. Muitas vezes saio da casa das minhas patroas, ou com dor de cabeça ou então com aquele cheiro intenso a lixívia no nariz. Este serviço mantém-se ao mesmo preço, no fundo são limpezas que já fazíamos antes de existir o vírus. Logo, quando nos contratam é para deixar a casa limpa e “desinfectada”. Depende sempre do material que estamos a limpar: madeira, mármore, pedra. Temos um aliado, e passo a publicidade, que é um produto que se chama Methylated Spirit, que serve para diversas coisas e uma delas é a desinfeção de superfícies.

Agora falemos de voltar. Cândida, queria que dissesses se pensas em voltar ou se estás muito bem aí? E se não tencionares voltar, que expliques o motivo. E tu, Inês, o contrário. Se tencionas voltar à Austrália ou não e porquê?

Cândida: Sim penso em voltar, se Deus quiser. Para já mantenho-me aqui. Tenho os meus objetivos a cumprir e gostava de alcançá-los. Se não for a todos pelo menos a alguns. Aprendi muito. A vida tem vindo a pôr pessoas muito importantes na minha vida, aqueles que eu posso chamar de amigos. A vida presenciou-me com fases de aprendizagem boas e não tão boas e isto tudo fez com que eu aprendesse e me tornasse uma pessoa melhor, com mais valores, mais genuína e mais humilde. Claro que, como todos, também tenho o meu feitiozinho. Enquanto estou aqui, vou aproveitando as praias que são um sonho. Adoro e ponto. É algo tão reconfortante, tão singelo... é puro! As saudades... meu Deus. Tenho fases em que me apetece pegar na mala, meter-me no avião e só parar em Caminha. (Seria muito fácil se fosse assim). Não vejo hora de abraçar “os meus”. Aquela saudade de rir com vocês, de dar um pezinho de dança, de beber um copo, de conversar, de pedir e dar opinião. Caminha e as saudades... No fundo foi onde cresci e tenho as minhas raízes. Aquele cheirinho a maresia (não é o que vem dos esgotos, não façam confusão), o caminhar ou correr na marginal... Nostalgia quase em último grau. E a gastronomia? Meu Deus.. mesmo que a gente queira fazer a comida “típica portuguesa” o sabor nunca é igual. As carnes são diferentes, os peixes, chouriças, alheiras, bolos de bacalhau, tudo! Para já vai-se reinando com molho de soja, caril, moroccan e claro nada melhor para o calor que umas cervejas fresquinhas para refrescar. Luís, não posso terminar sem mandar beijinhos para o pessoal e que tenham paciência que esta fase vai passar. Daqui até lá.. cuidem-se!

Inês: Não tenciono voltar a Austrália porque já cheguei á conclusão de que o meu futuro é cá. Dói-me muito estar separada da minha família mas por vezes temos de tomar decisões, decisões difíceis mas é o melhor para nós. Gosto muito da Austrália, é um país lindíssimo mas não me identifico pelo simples facto de não conseguir ter saídas profissionais. Os meus pais tiverem lá quando era novos, tiveram lá a minha irmã, portanto sou a “única” que pode estar lá só de visita. Além disso, passo muito mal nas viagens de Portugal até lá. Por norma são duas escalas, uma das viagens dura oito horas a outra dura treze, sem contar com o tempo que esperas no aeroporto pelo próximo voo. Sonho com o dia em que vou pegar no carro até ao aeroporto para os ir buscar. Até lá há que trabalhar muito.

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Foi um enorme gosto e muito divertido entrevistar as irmãs Ramos Matos. Aquele grupo do WhatsApp ainda se chama "Entrevista Blog", mas o conteúdo já passou a ser muito mais do que isso. Espero que sejam muito felizes, seja em Portugal ou na Austrália. Mas de uma coisa podem ter a certeza: vai ser impossível elas estarem cá as duas sem eu combinar um café com elas.

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