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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

ENTREVISTA CATARINA FERNANDES DE OLIVEIRA: "Devia haver mais apoio aos jovens leitores e escritores"

Conheci a Catarina há pouco tempo quando começamos a falar via Facebook para trocar impressões sobre as nossas experiências no mundo da escrita. Nunca em momento algum ela me disse a idade dela e fiquei muito surpreendido quando soube. A Catarina tem 17 anos e tinha 16 quando publicou o seu primeiro livro. Começou a escrever aos 14.

O seu estilo de eleição é fantasia e comecei por identificar-me com ela quando me disse que a saga Harry Potter da J. K. Rowling era a sua preferência no mundo da literatura. Apercebi-me, através da Catarina, que a idade pesa muito pouco no que diz respeito ao processo criativo. Nós, os autores, somos criaturas peculiares, mas com muito para contar, independentemente da idade.

Focada, interessada, independente, a Catarina Fernandes de Oliveira está atualmente no 12.º ano, a acabar o curso de Ciências e Tecnologias e o ensino artístico especializado de música. Tal como eu, já publicou dois livros, Um Lobo Nunca Abandona a Sua Alcateia e Heróis Entre Estrelas. A entrevista dela é publicada hoje, no dia a seguir ao 2.º aniversário do lançamento do primeiro livro da sua tão querida saga. Estamos os dois de parabéns, visto que, hoje, o Blog do Vilas celebra um mês de existência!

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Como começou esta aventura da literatura? A minha foi da forma mais aleatória possível e sei que muitas vezes entramos neste mundo de formas bastante interessantes...

Houve um certo verão, tinha eu 14 anos, e fui queixar-me à minha mãe que não tinha nada para ler ou para fazer e ela sugeriu, meio na brincadeira: "Olha, escreve um livro!". Eu às vezes sou um bocado literal e levei à letra. Comecei a escrever um livro sobre a minha vida, só mesmo para diversão. A certa altura, comecei a aborrecer-me de morte e decidi fantasiar a história toda. Como já referi, no início era só para diversão, mas acabei por me apaixonar pelas personagens e decidi que o livro tinha de ser publicado. A minha mãe começou então a tentar contactar editoras e um dia cheguei a casa e ela mostrou-me um email da editora Cordel d'Prata a dizer que queriam publicar o meu livro. A partir daí foi uma questão de acertar pormenores.

No meu caso, o meu processo criativo é muito sensível e dependente de todo o tipo de situações. Agora costumo escrever à noite e estar sozinho, com o máximo de silêncio possível. Mas quando comecei, escrevia no comboio, no quarto, antes de ir sair à noite, enfim... era mais versátil. Tornei-me um bocado caprichoso no que diz respeito ao tempo e ao espaço. Tu tens algum destes caprichos?

Compreendo perfeitamente esses caprichos criativos e gostava de dizer alguns, mas não tenho nenhum de que me lembre. Escrever livros enquanto fazia 2 secundarios não me deixou tempo para ser esquisita com as circunstâncias de escrita. Escrevo em qualquer lado, gosto muito em viagens longas de carro. Também me habituei a escrever com muito barulho, a minha irmã está a estudar para ser pianistas e o ruído é constante cá em casa, principalmente agora com aulas de Zoom de quatro pessoas (os meus pais são ambos professores). Mas prefiro escrever de noite e com uma caneca de chá fumegante.

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Achei muito curioso teres dado teu nome à protagonista da tua saga. Eu seria incapaz, até ao momento, de ter uma personagem com o meu nome. Quero afastar-me o mais possível de mim e das minhas realidades e construir as personagens de raiz. A tua Catarina tem outras semelhanças contigo para além do nome?

No iníciom a Catarina tem muitas das minhas características: é demasiado curiosa e demasiado honesta. Mas à medida que a saga avança, a personagem vai-se afastando de mim. Eu não passei por aquilo que ela passou, logo, ela desenvolve-se de forma diferente.

Conta-nos um pouco da história como se tivesses apenas esta oportunidade para vendê-la.

Esta história é sobre uma rapariga chamada Catarina, descendente de Alice, uma das heroínas mais famosas de todos os tempos. À medida que ela interaje com o mundo sobrenatural e com os outros heróis, faz descobertas cada vez mais interessantes. Descobre que tem um inimigo, que age em segredo contra ela, acabando por raptar a sua irmã. É uma história sobre amizade, lealdade e ultrapassar os medos. Claro que as coisas se desenvolvem muito ao longo dos livros.

Que mundo sobrenatural é esse?
O mundo sobrenatural é o mundo dos heróis, pessoas com habilidades especiais. Está povoado de criaturas fantásticas e magia. Existem centauros, ciclopes, gigantes, fantasmas...

Qual tem sido a opinião do público relativamente ao teu trabalho?

O público tem reagido muito bem. Eu costumo fazer apresentações nas escolas e sou sempre bem acolhida e os alunos que compram os meus livros dão-me sempre bom feedback. Nas redes sociais, a comunidade literária também tem sido um grande apoio e estão sempre abertos a fazer coisas com livros de autores portugueses.

Vou ser muito sincero: eu tenho 25 anos e o primeiro livro que publiquei comecei a escrevê-lo aos 19 e sei o que é ter adultos a entrar no nosso universo de jovens adultos, lê-lo e comentá-lo, apesar de, ainda assim, eu considerar que não tenha arriscado muito e no que diz respeito às minhas convicções, pouco mudou relativamente à altura e não me arrependo de nada. Mas, sendo tu muito nova, nunca puseram em causa a tua visão sobre o mundo?

Não tenho a certeza...sendo eu tão nova quando publiquei o primeiro livro, se calhar qualquer falha foi perdoada e nunca me disseram nada. O público-alvo dos meus livros também não são os adultos. Além disso, sendo o género fantasia, as diferentes perspetivas são mais aceites, acho eu. Afasta-se mais da realidade.

Sim, é verdade, o facto de ser fantasia dá-te outra possibilidade de flexibilidade. Ainda assim, estou a falar mais no que diz respeito às temáticas. Porque mesmo dentro da saga Harry Potter, que temos em comum adorar, a J. K. Rowling relata algumas peripécias deles na perspetiva de um adulto. E como foi jovem, consegue pôr-se na perspetiva de um jovem e ter uma personagem adulta que chame um jovem à razão. Eu estou a falar porque mesmo com 25 anos leio o meu primeiro livro e sei que há coisas que se nota que foram escritas por uma pessoa de 19 anos (com qualidade e espírito crítico, na minha ótica). Mas cada caso é um caso.

Sim, eu também noto que houve uma grande evolução do meu primeiro para o segundo livro. Defendo tudo o que escrevi no início da saga, mas se calhar hoje escreveria as coisas de outra forma. Nota-se que tinha 14 anos.

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Para ti, como é ser autor / escritor em Portugal?

Não é nada fácil ser uma escritora portuguesa desconhecida num meio em que a maioria dos leitores, com algumas exceções, não valorizam a literatura portuguesa. Para além disso, os jovens em Portugal cada vez leem menos e cada vez esta sociedade cultiva menos o gosto pela escrita e pela leitura. Confesso que o meio editorial em Portugal não é o melhor. Os leitores e as próprias editoras preferem apostar em bestsellers estrangeiros. Devia haver mais apoio aos jovens leitores e escritores. Muitas vezes, quando vou às escolas, vejo que muitos ficam interessados na minha experiência literária. As editoras deviam dar muito mais apoio aos jovens autores portugueses.

Por que é que achas que há cada vez mais desinteresse na literatura por parte dos mais novos?

É o que eu vejo nos meus próprios colegas, poucos deles leem. A minha turma é de Ciências e é das melhores. Se na minha é assim, imagino nas outras. Também vejo que os mais pequenos começam a ver séries de pequenos, coisas que nós não tinhamos, o que também não deve estar a ajudar à literatura.

Quando começaste a escrever já sabias que querias uma saga?

No início mesmo não, mas quando cheguei a meio do livro, vi logo que ainda tinha muita história para desenvolver.

Então já sabes que final vais dar às tuas personagens? Costumas "matar" personagens ou, se te afeiçoas muito a elas, depois custa-te "fazer-lhes mal"? A mim dói-me sempre...

Eu sou impiedosa! Se sentir que o fim certo para uma certa personagem é a morte, não hesito. Claro que se tiver de matar um dos meus protagonistas vai custar!

Qual foi a opinião mais interessante que já tiveram em relação a um livro teu?

A coisa mais interessante que alguém me disse acerca do meu livro foi que tinha sido o primeiro livro que tinham gostado. Para mim foi muito importante saber que tinha introduzido essa pessoa ao mundo fantástico dos livros e saber que a minha história influenciou alguém dessa forma é maravilhoso. Mais do que fama e dinheiro, o meu objetivo quando escrevo é influenciar as pessoas e deixar a minha marca no mundo.

E planos para o futuro?

Apesar de ter a certeza que a escrita fará sempre parte da minha vida, estou a pensar seguir um curso na área das ciências, talvez Bioquímica ou algo parecido. Claro que não posso planear mais do que isso, sei que as coisas vão mudar muito ao longo dos anos. Tenho de esperar para ver.

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Esperemos que a escrita continue a fazer parte da vida da Catarina, até porque queremos ver a saga terminada! É de louvar haver pessoas que cumprem os seus sonhos ainda tão jovens, com sucesso e com uma opinião tão boa da parte do público. Muitas felicidades, Catarina! Bom trabalho e bons estudos!

 

 

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