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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

ENTREVISTA DAVID COSTA: "Houve quem se passasse com as cenas que eu escrevi utilizando os demónios de Belzebu"

O David é o segundo autor que entrevisto esta semana. Conheci-o no dia em que, por coincidência, lançámos os dois os nossos segundos livros, eu A Madrasta e ele O Despertar do Nefilim. Começámos a conversar para trocar impressões sobre os nossos processos criativos. Ele estava com algumas dificuldades de gestão de tempo, porque a realidade é que tem uma vida extremamente preenchida. 

É muito bom conversador, extremamente compreensivo e muito prestável. Ainda assim, acho que a maior qualidade do David é a humildade. A sua vida divide-se entre o trabalho no supermercado, ser professor de Judo, ser pai e a escrita. Eu disse que a vida dele era preenchida. E nota-se perfeitamente que o David investe toda a sua paixão em tudo aquilo que faz.

Tal como eu e como a Catarina Fernandes de Oliveira (ver entrevista aqui), já escreveu dois livros. O David é mais velho do que eu e as temáticas dele são diferentes. Mas pelo que tenho ouvido e lido, os livros dele dão gosto de ser lidos. Combinámos encontrar-nos para trocarmos as nossas obras. Estou ansioso para poder entrar no universo que ele criou.

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Fala-nos do teu percurso como autor. Como é que tudo isto aconteceu?

Não vou dizer que foi por acaso, mas comecei a escrever tarde, já muito depois dos meus 20 anos. Lembro-me perfeitamente que estava na casa da minha avó e lembrei-me de começar a escrever. Idealizei uma história e as personagens e posso dizer que a partir daí nunca mais parei.

E a partir daí quando é que decidiste publicar? Qual foi o teu interruptor mental que te disse "espera aí... se calhar isto podia dar para o pessoal ler"?

Acho que foi à medida que ia escrevendo e me ia divertindo a ler o que escrevia. Adorava andar para trás na escrita, alterar o que lá estava e depois quando relia tentava colocar-me no papel de leitor, e gostava do que lia. Isso aliado ao que ia lendo, fez-me ver que tinha potencial para ser publicado. Quando acabei o livro A Espada Flamejante só conhecia 3 editoras em Portugal: a Presença, A Leya e a Asa. Lembro-me que enviei o livro fisicamente, encapado, bonitinho, e apenas a "Asa" me respondeu a dizer que estavam a analisar. Claro que depois não disseram mais nada, mas a semente estava lançada. Bem, comecei a acreditar. Quando já estava mais "familiarizado" com o meio informático, enviei o original para o meu irmão com a seguinte mensagem: "Envia para quem quiseres", e ele enviou para várias editoras (eu nem fazia ideia que existiam tantas!) e quando já tinha perdido a esperança, lá surgiu um contacto de uma editora. Foi uma explosão de alegria. Decorria o ano de 2008. Infelizmente, não deu certo com essa editora. Houve inclusive processos em tribunal e cheguei a querer desistir, mas uma entrada ocasional numa livraria reavivou em mim a chama adormecida e voltei à carga. A partir daí, escrever passou a fazer parte de mim.

Fala-nos um bocadinho das tuas histórias. Sei que, para além de personagens que crias de raiz, tens algumas mitológicas. De que forma se relacionam e porquê a escolha de personagens mitológicas?

Bem, apesar de ter lido vários livros com "pessoas reais", como é o caso dos livros de Dan Brown ou José Rodrigues dos Santos, a minha preferência sempre foi para os livros de ficção / fantasia, como O Senhor dos Anéis, A Trilogia Bartimaeus e o expoente da Fantasia em português As Crónicas de Allaryia de Filipe Faria, e claro, tenho que falar que devorava os filmes que havia relacionados com fantasia, sobretudo os que se passavam na Idade Média.
Mas claro que tem de haver sempre personagens humanas, que fazem a ponte entre a mitologia e o mundo real, tal como o conhecemos. Por isso, utilizar personagens mitológicas tem tudo a ver com a minha escrita. Neste momento, não me estou a ver a escrever de outra maneira! N'A Espada Flamejante, a mitologia utilizada é a típica dos romances épicos: grifos, elfos, orcs, igreja, feiticeiros e druidas, entre outros.
Neste livro, O Despertar do Nefilim, a mitologia é de influência da religião judaico-cristã, onde pontificam anjos, demónios, arcanjos, céu e inferno. Para este livro fiz muita investigação, o que me deu muito gozo. No primeiro limitei-me a usar o que sabia.

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Sei que houve quem se tivesse acusado de heresia por utilizares alguns seres mitológicos...

Sim, isso foi muito divertido! Há dois tipos de demónios que mais uso neste livro: o Súcubo, que é o servo de Asmodeus e os demónios servos de Belzebu. Segundo a mitologia, Belzebu é o primeiro tenente de Lúcifer e é o demónio da Gula (existe um demónio para cada um dos pecados mortais) e tem o título de Senhor das Moscas e da Pestilência. Só por curiosidade, há quem acredite que neste momento é Belzebu que governa o Inferno, e não Lúcifer. Mas voltando à tua pergunta, houve mesmo quem se passasse com as cenas que eu escrevi utilizando os demónios de Belzebu. São duas cenas distintas, onde milhares de moscas possuem corpos humanos, mas a descrição é muito visual e isso fez com alguns leitores não conseguissem continuar a ler o livro, e inclusivamente tiveram pesadelos. Bom, acho que é isso que quem escreve quer, que os leitores sintam e vivam o que escrevemos!

Como têm reagido os leitores?

No primeiro livro (ainda com a editora que me deu problemas) a reação das pessoas foi mais de espanto que de outra coisa. As pessoas viam-me como alguém que apenas se dedicava exclusivamente ao Judo e não imaginavam que eu escrevia. Quando relancei A Espada Flamejante, melhorada e com outra estrutura, o fator surpresa tinha desaparecido e sinceramente, não procurei tanto saber a opinião dos leitores. Foi, sem dúvida, uma falha minha mas o lançamento do livro coincidiu com o nascimento do Afonso ("nasceram" os dois no mesmo dia, 15 de abril de 2010) e de repente vi-me numa realidade completamente diferente. Devo no entanto salientar o entusiasmo do editor da HM Editora, o Hugo Mota que sempre elogiou o livro e a escrita e ainda agora quando falamos me pede a continuação. Em relação a'O Despertar do Nefilim, desde a "primeira fase" que o feedback tem sido extraordinário, caso contrário nem teria continuado. Primeiro lancei o livro de forma gratuita na internet, onde, após "negas" e propostas megalómanas de pseudo-editoras, estava decidido a dar a conhecer o meu trabalho. Ia lançando capítulos e o as opiniões favoráveis sucediam-se o que me levou, após algum tempo e sem conseguir arranjar editora, a lançar uma edição de autor. Continuei a ter um feedback extremamente positivo, com desconhecidos a pedirem o livro e a dizerem coisas como "li-o em poucos dias porque não conseguia parar de ler", ou "até senti calafrios com as tuas descrições". Quando lancei o livro através da editora Cordel d'Prata, os comentários positivos mantiveram-se. Por isso posso dizer que, em três fases, o feedback foi muito bom.

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Sentes que as pessoas estão preparadas para esse tipo de imagens chocantes antes de começarem a ler um livro teu?

Se calhar não todas, sobretudo as que não costumam ler este tipo de livros... Acho que no fundo, e isto falando de quem me conhece, não me estava a ver a escrever daquela maneira. Já tive este feedback desde o tempo em que tinha o livro na nternet. Mas acabo por brincar com a situação. Quando alguém se aproxima e diz coisas do género: "Não pensei que fosses escrever aquilo, nem parece teu", eu respondo "Claro, vocês ainda não visitaram a minha cave..."

Pelo que já conversámos, o teu estilo é bastante sangrento e cru. Não tens o mínimo de remorso quando tens de matar alguma personagem? Quando começas a escrever já sabes o desfecho de cada personagem?

Acho que se pode chamar o meu estilo de "sangrento e cru", sim. Mas há uns anos atrás era impensável para mim escrever desta maneira. Quanto ao remorso, na escrita posso talvez ser chamado de "assassino a sangue frio", não tenho qualquer tipo de problema em matar personagens ou fazê-las sofrer. Normalmente quando idealizo a história já sei o destino das personagens. O meu objetivo é causar impacto nos leitores e esperar que esses sim, sintam os nervos à flor da pele, chorem e riam. Para te dar um exemplo, quando terminei a segunda parte deste livro (que em modo de confidência, já tem nome e data prevista de lançamento) enviei para duas leitoras Beta que me ajudaram imenso e uma delas, a certa altura enviou-me uma mensagem a dizer: "Fulano devia morrer queimado! Que nervos me mete aquela personagem!". É esse tipo de emoções que quero despertar no leitor, mas das quais me consigo abstrair.

Isso alguma vez te prejudicou de alguma forma ou esse tipo de emoções agrada aos leitores?

Acho que não me prejudicou em nada, acho mesmo que agrada à maioria dos leitores porque além de ter essa parte violenta e de terror, também tento colocar algum mistério para que apeteça ler sempre um pouco mais.

Com que autores mais te identificas?

Essa pergunta é um bocado ingrata porque, na verdade, não há um estilo de um ou outro autor com o qual eu me identifique. É um bocado como o meu gosto pela música: gosto de um tema desta banda, doutro daquela, duma música de um cantor... Não sou seguidor de nenhum estilo em especial. Como disse antes, bebo da sabedoria de outros autores, mas tento criar o meu próprio estilo. Se calhar os leitores do meu livro é que me poderão identificar com outro autor.

Como é ser autor em Portugal?

Ser autor em Portugal é uma autêntica aventura. Para além de as pessoas lerem pouco, conseguir um contrato com uma editora é uma tarefa hercúlea. Só com muita resiliência é que se consegue chegar a algum lado. As editoras não apostam nos novos autores, e quando o fazem, os autores têm que pagar para serem publicados. Felizmente há muitos "bravos" que não desistem, senão o panorama literário estava entregue apenas a escritores reconhecidos e estrangeiros (que são as grandes apostas das ditas grandes editoras). Resumindo, para se ser autor é preciso ser-se "carola", resiliente e ter um enorme poder de encaixe para ouvir "nãos" ou simplesmente ser ignorado.

Planos para o futuro no que diz respeito à literatura?

Seria excelente conseguir organizar-me para escrever de forma mais contínua, nas sou um desorganizado por natureza. Vê lá tu que neste tempo de confinamento, em que não estou a treinar, ainda não escrevi uma linha que fosse da terceira parte do livro! Mas gostava que os meus livros se tornassem conhecidos e que, como acontece com outros autores, as pessoas estivessem sempre à espera do próximo, e do outro a seguir...

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Agradeço mais uma vez ao David por ter dado o seu testemunho. Espero que, no meio da vida ocupada que ele tem, continue a haver um espaço para a escrita. Acreditem que o David foi mesmo uma grande surpresa para mim e há poucas pessoas como ele. E pelo que leio sobre os livros dele, tenho a certeza de que é um universo incrível.

Muito obrigado, David! Continuação de um bom trabalho:

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