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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

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POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

ENTREVISTA NUTRICIONISTA ANA GOIOS: "Duvida sempre do nutricionista que te responda a qualquer pergunta sem começar a resposta com um "depende""

A Nicas (como chamamos à Ana) não é diretamente da minha família. É prima dos meus primos, mas é como se fosse um bocadinho minha também. Costumamos cruzar-nos em natais e em festas épicas e rimo-nos sempre muito juntos. Quando estudava no Porto vinha várias vezes com ela e com a irmã dela, a Filipa, para Lanhelas e as viagens eram de rir.

Sempre foi uma pessoa admiravelmente responsável e profissional. Atualmente partilha no Instagram receitas e dicas para uma alimentação saudável com base nos seus conhecimentos. A sua página já conta com mais de 15 000 seguidores.

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Licenciada em Ciências da Nutrição na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) desde 2013 e primeira autora do Manual “Pesos e Porções de Alimentos” (1ª, 2ª e 3ª edições). Atualmente, é doutoranda em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição na mesma faculdade e é nutricionista numa empresa do setor alimentar, trabalhando na área de inovação e desenvolvimento de novos produtos. Adicionalmente, exerce como nutricionista e formadora na área clínica e na área da nutrição no desporto. Dá consultas na MyoClinic, uma clínica com instalações em Vila Nova de Gaia e no Porto, na Escola de Ballet do Porto e no Citius Fit em Cerveira. É formadora de alguns cursos na Bwizer e na Academia Clínica do Dragão e colabora como docente em duas pós-graduações da CESPU.

A conversa foi animada, mas com alguns percalços. Eu enganei-me na data que tinha combinado com ela para a entrevistar e depois, com o tempo contado devido ao facto de a vida dela ser muito ocupada, conseguimos uma conversa bastante esclarecedora.

Hoje em dia fala-se muito nos estereótipos de beleza. Há a discussão que uma pessoa com um corpo "não ideal" a nível social pode ser saudável na mesma e uma pessoa com um corpo escultural não é necessariamente saudável. Qual é a linha que separa estes dois conceitos?

O que é ser saudável? Não podemos responder à tua questão sem responder a esta. De acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde que aprendemos na escola, saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença. Portanto, não há dúvida de que estar ou não saudável não se resume à aparência física de uma determinada pessoa. Também sabemos que, infelizmente, o excesso de peso (e a obesidade) é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crónicas, tais como a hipertensão arterial, a diabetes tipo II, o cancro, entre outras. No entanto, isto não significa obrigatoriamente que todas as pessoas magras sejam saudáveis, nem que todas as pessoas com excesso de peso apresentem complicações de saúde. É perfeitamente possível que uma pessoa com peso normal apresente défices nutricionais associados a uma alimentação desequilibrada, por exemplo, uma pessoa com anemia por deficiência de ferro ou com dislipidemia (valores de colesterol elevados). Da mesma forma, é possível que um adolescente obeso não apresente, até ao momento, qualquer complicação associada. No entanto, é importante referir que estas complicações relacionadas com o excesso de peso se manifestam a médio / longo prazo. Se pensarmos de um ponto de vista emocional e social, diria que essa questão dos padrões e daquilo que é socialmente aceite / exigido tem contribuído para uma má relação com a alimentação e é, sem dúvida, um fator de risco importante para o desenvolvimento de perturbações do comportamento alimentar.

Irrita-te que, de repente, toda a gente perceba de nutrição?

Sim, irrita-me que toda a gente fale de nutrição. De repente, toda a gente acha que pode falar de nutrição. É o personal trainer, o enfermeiro, o cabeleireiro, a esteticista, o senhor do autocarro ou a senhora da fila do supermercado. Nunca se ouviu falar tanto de alimentação "saudável" como atualmente. E o problema começa aqui: essas pessoas não têm formação para falar sobre nutrição. Outro problema: as pessoas querem respostas do tipo "sim ou não", "oito ou oitenta", "preto ou branco" e há tantos tons de cinzento na nutrição! Como eu costumo dizer, duvida sempre do nutricionista que te responda a qualquer pergunta sem começar a resposta com um "depende". Isto porque um alimento pode ser saudável para mim e não ser saudável para ti. Um peso de 50kg pode significar obesidade para a pessoa X, mas pode ser baixo peso para a pessoa Y. O glúten pode ser completamente inofensivo para a Maria, mas pode ser altamente perigoso para o João (se o João tiver doença celíaca). Lá está, depende! Depende da pessoa, depende do contexto, depende do objetivo. Depende de uma série de fatores. E por isso é que aquilo que vemos no Instagram (ou qualquer outra rede social) de determinada pessoa, por muito que tenha resultado no caso dela, não resulta com todas as pessoas. É só o caso dela.

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influencers que representam perigo nesse sentido? Achas que eles podem ser de certa forma irresponsáveis por partilharem as suas rotinas com o público de forma a tornarem-se um exemplo? 

Não diria que considero irresponsável que as pessoas partilhem o seu estilo de vida. Considero irresponsável que as pessoas deem dicas, prescrevam planos (tanto de alimentação, como de treino) e aconselhem outras pessoas, que não conhecem minimamente, com base no seu exemplo pessoal. Mesmo os conselhos ou as recomendações mais genéricas podem não ser aplicáveis a todas as pessoas. Todos os dias, somos expostos à opinião de centenas de influencersbloggers, youtubers e instagrammers e infelizmente, o que acontece é que a credibilidade que as pessoas conferem é tanto maior quanto maior for o número de likes, ou de seguidores / subscritores. No entanto, nós sabemos que a robustez da evidência científica relativamente a um assunto não se mede assim! Recentemente, escrevi um artigo sobre Ortorexia Nervosa (para ler aqui) e falei sobre o impacto negativo que esta (des)informação veiculada nas redes sociais pode apresentar. 

Quais são os piores exemplos que eles podem dar?

Não podemos assumir que tudo o que os influencers partilham é mau. Conheço muitos que, felizmente, transmitem informação credível e que fazem questão de salvaguardar que estão a partilhar apenas o seu estilo de vida e aquilo que faz sentido especificamente para eles. Acredito que muitas pessoas vejam nesses influencers a sua inspiração e motivação para seguir um estilo de vida mais saudável. Até aqui, nada contra, tudo bem. O problema surge, quando os vemos a promover e a incentivar determinados produtos, suplementos e / ou práticas alimentares, sem qualquer suporte científico. Claro que a "gravidade" associada pode ser muito variável. Por exemplo, se um influencer recomendar o consumo de água morna com limão ao acordar por mil e um motivos milagrosos para a saúde, é certo que sabemos que não há evidência científica que os sustente, mas o risco associado é mínimo. Assim de repente, diria que não fará mal a ninguém beber um copo de água morna com limão. No entanto, o risco é extremamente maior, se esse influencer recomendar o consumo de quatro ou cinco batidos detox ao longo do dia, como substitutos de todas as refeições, por um período de tempo indeterminado. É lógico que as pessoas só seguem e só "acreditam" naquilo que querem, no entanto, é importante reconhecer que é cada vez mais difícil "filtrar" o que vemos nas redes sociais, sobretudo se considerarmos pessoas que não têm qualquer formação na área da nutrição ou da saúde.

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Há uns dias vi um documentário chamado What The Health, cujo objetivo seria desfazer alguns supostos mitos alimentares com testemunhos reais. Centrava muito a problemática da má alimentação no consumo de carne no geral. Qual é a tua posição relativamente ao consumo de carne? É prejudicial? O nosso corpo está preparado para comer e processar carne?

Confesso que não vi o documentário na íntegra, mas conheço. Como qualquer documentário tem a sua "dose" sensacionalista. Se eu acho que devemos reduzir o consumo de carne? Sim, acho, mas isto não significa que eu ache que devemos ser todos vegans de hoje para amanhã. A carne faz parte da Roda dos Alimentos e, como tal, deve fazer parte da nossa alimentação, no entanto, a quantidade ingerida e a frequência com que a ingerimos é que deve ser alterada. Uma posta de carne à mirandesa (300g) tem cerca de 75g de proteína, que é o equivalente a três batidos de proteína de soro de leite (a chamada proteína whey), que as pessoas ainda têm tanto medo e acham que é uma "bomba proteica", muito prejudicial para os rins! Mas não querendo fugir à tua pergunta, sim, acho que devemos reduzir o consumo de carne e dar espaço a outras fontes proteicas alternativas como o ovo e / ou as leguminosas, não só por uma questão de saúde (sobretudo se considerarmos as carnes vermelhas e / ou carnes mais processadas), mas também por motivos ambientais e ecológicos. 

Criaste um ebook solidário para ajudar famílias na situação da pandemia. Fizeste mais de mil euros e eu tenho a dar-te os parabéns pela iniciativa. Ainda se encontra à venda? Que tipo de receitas as pessoas podem encontrar lá?

Muito obrigada. Sim, eu sou voluntária no Refood já há alguns anos e, de facto, dadas as circunstâncias atuais, o meu centro (e acredito que os restantes no país) está a sentir alguma dificuldade em manter o apoio às 25 famílias beneficiárias. Confesso que o ebook foi a primeira ideia que tive para ajudar de uma forma mais rápida. Mais concretamente, o ebook contém sete sugestões de receitas para o pequeno-almoço e/ou lanches, com a respetiva informação nutricional. Felizmente, correu muito bem e conseguimos quase 1200€, superando todas as minhas expectativas! Neste momento, o projeto do ebook terminou mas qualquer pessoa que o queira fazer, pode contribuir, através de transferência bancária ou mesmo da entrega de bens alimentares (informação disponível nas hiperligações abaixo).

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A Nicas continua a dar as suas dicas através das redes sociais, de receitas saudáveis e saborosas. Eu continuo a gostar muito dela e com certeza que, desta agenda tão preenchida e de tantas solicitações, ela vai ser continuar a dar cartas no mundo da nutrição. Obrigado por partilhares connosco os teus conhecimentos e teres esclarecido aqui o teu testemunho e as tuas "irritações". Vemo-nos em breve. Continuação de um bom trabalho!

 

Instagram: Ana Goios - Nutricionista (@anagoios_nutrition)

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Artigo sobre Ortorexia Nervosa: Ortorexia nervosa: quando uma “alimentação saudável” deixa de ser saudável

 

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