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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

ENTREVISTA STEVEN ROD: "Esta pandemia serve também para algumas pessoas começarem a dar valor a quem lhes proporciona espetáculo."

O Steven Rod é de Monção e é uma referência da noite do Alto Minho. Considerado um dos 20 melhores DJ do país, o Steven é um exemplo de trabalho, humildade e de empenho.

Trabalho na noite há 6 anos e conheci o Steven quando ele ia tocar à discoteca onde trabalho, o Club Alfândega. Faz sentido entrevistar o Steven nesta altura em que as salas de espetáculo estiveram fechadas durante muito tempo e não nos podemos esquecer de que todo o trabalho de um DJ, por muito que custe a muita gente e com todos os preconceitos inerentes, é uma arte e faz parte da cultura e do entretenimento do nosso país.

O Steven pediu que eu fizesse perguntas diferentes de todas as que já lhe tinham feito. Como está no top 20 nacional, já foi entrevistado várias vezes e, por isso, ser eu a entrevistá-lo tornou-se ainda mais desafiador.

DJ desde os 16 anos e profissionalmente desde os 18, já tocou em vários países. Já divertiu pessoas em Miami, Espanha, Dubai, França e muitos outros. Já partilhou cabine com nomes muito importantes do panorama musical mundial como Steve Angelo, Steve Aoki, Diego Miranda e muitos outros. No Alto Minho, já tocou em casas como Biba Ofir, Pacha Ofir, Club Alfândega e Indústria Agrícola. 

Considera-se uma pessoa versátil, carismática e sente que se destaca por arriscar e fazer diferente.

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Começaste há 15 anos. Entretanto, muita coisa mudou na noite e no mundo. As coisas mudaram muito depressa em todos os sentidos, não havia redes sociais na altura e havia mais limitações a dar-nos a conhecer. Quais foram os maiores obstáculos que encontraste no início do teu percurso? Seres novo ou seres de um meio pequeno, por exemplo, limitou-te em alguns aspetos?

Quando comecei a tocar não havia redes sociais com a força que há hoje. Havia várias limitações, sim. Quando comecei, era DJ residente em Monção, numa vila pequena. Houve um momento em que decidi ser freelancer. A minha vila sempre foi dada à festa e isso cresceu comigo. As pessoas começaram a acompanhar o meu crescimento e quando comecei a tocar noutros sítios para além de Monção (Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo e Ofir), a malta de Monção marcava sempre presença em peso. Lembro-me de uma festa chamada, salvo erro, Spring School Party, na Indústria Agrícola em Vila Nova de Cerveira e a discoteca estava repleta de gente de Monção e isso chamou a atenção de muita gente. Uma das pessoas que lá trabalhava, trabalhava também em Viana do Castelo e o próximo passo foram as quintas-feiras académicas. Disseram que gostaram da atuação e da quantidade de pessoas que eu tinha trazido e o convite surgiu já para essa mesma quinta-feira, para ver como é que eu "me safava". Depois, toquei no Café Del Rio também por intermédio de pessoas que trabalharam nessa noite e entretanto fiquei na Off Dance Club e fiz muito sucesso aí. Esse sucesso foi-se espalhando, a malta seguia-me para todo o lado (também porque não fazia muitas datas seguidas) e o próximo passo foi o Biba Ofir, na Fiesta Cubana. Aí comecei a tocar em eventos grandes no verão e isso abriu-me muitas portas. Durante esse período fui ao Algarve na esperança de arranjar lá alguma coisa e a verdade é que consegui os melhores na altura e arriscaria dizer que mesmo hoje o são. Pedi a minha oportunidade sem medos, cara a cara, depois de pedir para falar com os responsáveis. A Patrícia e o Matias do No Solo Água deram-me essa oportunidade e ainda hoje trabalho com eles. Posso dizer que nunca houve problema em ser nortenho, acharam piada ao facto de ser jovem e de estar a pedir a minha oportunidade e ter o carisma que tinha e que ainda hoje considero que tenho. Tive a sorte de me cruzar com as pessoas certas na noite e isso foi uma grande vantagem.

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O que é que mudou nestes 15 anos no panorama noturno? 

A diferença é enorme. Sempre tive interesse em procurar coisas novas e músicas novas. E é nas músicas novas que está a diferença. Quando eu comecei a tocar, em Monção, eu levava um projeto diferente, música diferente, coisas que, por norma, não se costumava ouvir. As pessoas antes saíam para ouvir o que o DJ tinha para tocar e para lhes mostrar de novo. Hoje em dia tenho a certeza de que isso se perdeu. Ainda há locais onde se vai para ouvir coisas novas, mas a maior parte dos locais passa músicas de rádio e músicas do momento. 

Ou seja, sentes que antigamente as pessoas iam à procura da novidade e hoje em dia as pessoas procuram que o DJ passe aquilo que elas querem? Achas que hoje em dia um DJ para encher uma sala tem de ter mais cuidado para agradar ao público? Achas que existe uma limitação criativa no que diz respeito a isso? Achas que há muitos DJ que se privam de criar coisas novas precisamente porque sabem o público, na sua generalidade, sabe o que quer ouvir e não está aberto a coisas novas?

Sem dúvida que isso criou uma quebra na parte criativa. Muitas pessoas têm muitas possibilidades de fazer grandes cenas. Essa limitação criativa, como dizes, só alinha nela quem quer. Eu continuo a tocar aquilo que eu quero, aquilo de que gosto (caso contrário não faria sentido para mim), mas há que ter noção de que estar numa cabine não é meter música, ser o DJ da noite, aparecer nos cartazes e etc. Acima de tudo, é uma grande responsabilidade, até porque estamos a falar de um negócio. As discotecas têm de fazer dinheiro durante a noite. Se alguém vai lá e faz asneiras, a malta vai embora e o patrão não ganha dinheiro. Tens sempre de ter um certo cuidado. Deves adaptar-te, mas, no meu caso, o sucesso veio de eu fazer aquilo que eu gosto e daquilo que eu sou. E acho que consegui deixar a minha marca.

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Sentes-te privilegiado por teres começado nessa altura em que havia mais liberdade criativa e em que os DJ não tinham de fazer tanto as vontades do público? Achas que é mais difícil ter liberdade criativa hoje em dia mas que é mais fácil ser DJ porque o público quer ouvir as músicas do momento?

Basicamente, isto é como na vida: tens vários caminhos e tens de optar por alguns. O mais importante para mim era sentir-me realizado e, de certa forma, quando vejo estes miúdos novos a aparecerem, sinto-me privilegiado. Os outros também pensarão assim: o Diego Miranda, o Pete Tha Zouk e o DJ Vibe, por exemplo, também de certeza de que se sentem privilegiados por terem começado na altura em que começaram. O importante, no fundo, é fazer as coisas com dedicação. O outro caminho é o mais fácil. Acho que arriscar é o caminho mais difícil. Quando fazes aquilo que vem de dentro de ti, sem dúvida que é o caminho mais difícil, mas se acreditares no que fazes, as coisas vão resultar.

O que é para ti ser DJ?

Para mim, ser DJ é muito mais do que estar numa cabine a pôr música. No fundo, o que um DJ faz é gerar emoções e isso é o que tens mais piada. Até porque todos sentimos de formas distintas e quando estás na cabine, estás a gerar emoções. Quando chegas ao ponto de concentrar todas essas emoções em apenas um momento, a ver as reações de cada um, isso é muito bom. Ver as pessoas e sentir a energia delas é, sem dúvida, o que mais me dá pica. No sentido de festa, liberdade e em muitos outros sentidos. Lembro-me perfeitamente de uma imagem que vi há pouco de uma multidão a fotografar um momento e uma senhora idosa apenas a apreciar. Antigamente a energia era passada de forma diferente. As pessoas aproveitavam mais o momento. Óbvio que a divulgação da imagem traz outras vantagens, porque nos promove e dá vontade às pessoas de virem às nossas festas. No geral, estar em cima da cabine é um privilégio porque te apercebes de que, naquela noite, se está a passar muita coisa. Muitas emoções estão a ser vividas.

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Eu sei que és uma pessoa com espírito crítico. E como disseste, os DJ apercebem-se de muita coisa na cabine. Qual é, para ti, o maior problema da noite hoje em dia, considerando que achas que existe. Falo na atualidade, em que tudo evolui de forma rápida, de dia para dia e nós temos de nos adaptar a elas todos os dias e existem sempre situações menos felizes. 

O que, de certa forma, me mete mais medo na noite, são os conflitos e desentendimentos que acontecem na noite. Depois, a forma como vives a noite, isso vai de cada um. Se bebes água, whisky ou te drogas, isso vai de cada um e isso não acontece só na noite. Droga existe a toda a hora e em todo o lugar. Se houver um bom ambiente, simplesmente cada um sabe de si e faz o que cada um entender. Acho que, hoje em dia, grande parte das pessoas (não todas, atenção), não tem noção daquilo nós, que trabalhamos na noite, temos de fazer para proporcionar um momento de diversão ou um espetáculo. Não têm noção e, acima de tudo, não dão valor. Esta pandemia serve também para algumas pessoas começarem a dar valor a quem lhes proporciona espetáculo. Conheço muita gente que vive disto e que, nesta altura, não tem respostas. Seja montar um palco ou um sistema de som, seja produzir um evento, convidar artistas, servir um copo ou decorar discotecas. Um evento exige muito trabalho e muitas pessoas. E algumas pessoas deveriam pôr os olhos e pensar um bocado nisso. Acho que, muitos dos problemas da noite hoje estariam resolvidos se essas pessoas começassem a dar valor a esse trabalho.

Qual é a tua opinião sobre a noite atualmente, no contexto geral e em Portugal em particular? O que é que achas que a noite em Portugal tem a aprender com a noite internacional?

Nunca gostei muito de comparar. Porque cada sítio tem algo para nos mostrar e ensinar. Mas vai ao encontro daquilo que é produzido. Em Portugal, já houve grandes eventos com potencial que foram um fracasso. Há muita coisa que pode falhar e não é só o público que tem culpa. É difícil comparar. Há locais que são destinados a festa. Um evento em Portugal pode não funcionar igual em Espanha, em Ibiza. Em Ibiza é garantido que vai ter mais sucesso porque é um destino de festa, praia e loucura. Por isso, as comparações são muito relativas. Acho que devemos olhar para cada sítio por aquilo que ele tem para nos oferecer.

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Qual é o apelo que tu deixas neste momento de pandemia? O que é que consideras que deva ser feito já e qual é a mensagem que tens a passar a toda a comunidade de pessoas que trabalham na noite? Nós fazemos parte da cultura e somos salas de espetáculo e muita gente desvaloriza isso. Gostaria que deixasses um apelo e uma palavra amiga a quem trabalha na noite.

Se eu pudesse, ajudaria todos os meus colegas, mas infelizmente não posso. Os momentos maus que nos acontecem, levam-nos a tomar decisões e opções negativas e, por isso, apelo a que tenham calma. Um apelo meu, considero que não faria grande diferença, mas, para nos ajudar a todos no mundo artístico, devia haver medidas e condições para isso. Não é o momento certo para estes eventos acontecerem. Iria haver imensas regras e medidas que iriam tornar complicada a produção de um evento. Não haveria lucro. Se tivesse mesmo de apelar a alguma coisa, seria pedir apoio. Somos tão trabalhadores como outros quaisquer. Tenho muitos amigos que, neste momento, estão a passar bastantes dificuldades, daí o meu apelo.

Percebo perfeitamente o que dizes até porque toda a magia da noite implica multidão e toque. Acho que abrir com essas medidas preventivas até eu, se não estivesse a trabalhar, a partir do terceiro copo já estaria a abraçar toda a gente. Posto isto, como é que tu achas que vai ser o nosso futuro como trabalhadores da noite?

O futuro... não sei! Eu nunca gravei os meus sets, sempre improvisei e sempre fui de me adaptar, na minha versatilidade. No fundo, as medidas que forem impostas funcionam igual: temos de nos adaptar a elas da melhor forma, caso contrário, vai tudo voltar ao que era e teremos de recomeçar tudo.

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Qual é o principal conselho que darias a pessoas que aspiram ser DJ e fazer isso vida?

Em primeiro lugar é fazerem o seu espetáculo vindo do coração. Que gostem, acima de tudo, que amem aquilo que estão a produzir. Para poderem crescer é preciso ter muito cuidado nas decisões e pensar muito em cada uma delas. Medir os prós e os contras de cada situação e proposta que lhes apareça pela frente. Se tiverem de fazer algum investimento, que meçam mesmo se ele vale a pena. A partir do momento em que se fazem as coisas com amor, depois o tempo o dirá. Seja quanto tempo for. E insistir. Se atuarmos em algum lado para mil pessoas e apenas vinte entenderem o que quiseste transmitir, noutro apenas cinco, noutro trinta, é assim que se conquistam seguidores. E depois eles vão seguir-te se voltares próximo da zona deles, porque gostaram do teu trabalho. Por isso, é muito importante saberem que tipo de espetáculo querem fazer, evitar meter "a pata na poça" e fazer as coisas com carinho.

Quais são as pessoas e as casas que mais te marcaram? Fala-nos das tuas referências da noite. 

Referências há imensas. Artistas, produtores de eventos regionais, nacionais ou internacionais. Cada pessoa que produz num evento precisa de ter coragem, sobretudo em sítios pequenos como os nossos. E essa coragem é de louvar. Há vilas muito pequenas que fizeram grandes eventos. Há malta que destaca mais e chama mais a atenção, claro, mas isso funciona como uma equipa de futebol: todos trabalham em grupo para ganhar. Mas, no geral, todos são a minha refererência. Porque todos são importantes. Se eu retirasse apenas um bocadinho de todas as pessoas com quem já trabalhei e fizesse uma pessoa, eu iria ter um espetáculo muito forte mesmo. Relativamente a artistas, Erik Morillo é uma referência mundial. Mas há outros que são autênticos monstros a trabalhar! No contexto nacional, sem dúvida que o Diego Miranda, para além de ser um grande amigo meu com quem partilhei grandes momento, é uma grande referência. Em primeiro lugar pela pessoa que é, por todo o trabalho e dedicação, muitas horas sem dormir. Refiro o Diego por isso mesmo. Não quer dizer que não haja outros que não o tenham feito, mas ele é um dos casos que eu tive o gosto de testemunhar e ele é, sem dúvida, dos melhores. Aquilo que ele fez, faz e continua a fazer todos os dias e todos os planos dele são de louvar e ninguém lhe pode tirar o mérito.

Planos para o futuro, Steven? Achas que trabalhar na noite tem um prazo? 

Não consigo imaginar como será daqui para a frente. Sei que muitas coisas vão mudar. Se tudo continuar assim, vai ser muito complicado. Comigo é igual. Tinha muitos planos daqui para arrancar e infelizmente tive de os colocar em stand-by, devido a esta situação. Para além da minha carreira de DJ, fiz um investimento em janeiro, tive a oportunidade de abrir portas de um negócio próprio, que devido à pandemia tive de fechar dois meses depois. É um stand de automóveis, o Garage Automobile, que voltou agora a abrir portas. Mas muita coisa vai mudar. Há muitas coisas em causa, mas mais tarde ou mais cedo as coisas poderão dar uma volta. É viver um dia de cada vez, termos noção e sermos responsáveis. Temos de ter os pés bem assentes na terra e, acima de tudo, sermos positivos. Não podemos é perder a vontade de fazer aquilo que queremos porque isso é o principal ingrediente para sermos felizes.

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Um grande obrigado ao Steven por ter partilhado connosco o seu testemunho sobre a noite e sobre o seu percurso artístico. Fico muito contente por ele fazer parte dos meus entrevistados, ainda por cima fazendo ele parte de um mundo que me diz tanto e que há tanto tempo faz parte da minha vida.

Obrigado, Steven! Muita força para o futuro e que continues a dar cartas!

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