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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

"ERVAS DAS MINHAS" - Dióspiros

Dióspiros, diospiros, não, dióspiros. Sou sincero, ainda não me consegui convencer de que na verdade é dióspiros que se deve dizer, anos de uma luta perdida. Mas a verdade é que não há mesmo defesa possível pela história da palavra: esta fruta de outono chama-se dióspiro, do grego Διόςπῡρός (dióspyrós), que à letra se traduz por “trigo/fruto de Zeus”. Muito esclarecedor, se bem que o Vilas me tenha dito que não está errado de todo dizer "diospiros", fica a lição dada, decidam, ou indecidam.

Pois bem, não nos vamos prender à correção ortográfica e à teoria, por cá as pessoas que mais percebem de couves chamam-lhes "coibas", por isso vamos ao que sabemos fazer mesmo sem saber bem dizer.

Aos dióspiros.

Ou aos diospiros.

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Apesar de o nome desta fruta nos chegar por via dos radicais gregos, o género Diospyros abarca uma série de árvores e arbustos presentes um pouco por todo o globo. Desde os trópicos indianos aos desertos mexicanos, muitas destas plantas dão dióspiros de diversas cores, tamanhos e texturas, mas outras são cobiçadas pela sua madeira, como por exemplo, o ébano - uma árvore à qual os leitores músicos estão, com certeza, eternamente gratos. Apesar desta rica diversidade, os diospireiros que mais se adequam ao nosso clima e que são mais frequentemente plantados dividem-se entre dióspiros adstringentes, os dióspiros propriamente ditos - moles, e os dióspiros não-adstringentes, commumente chamados de caquis ou dióspiro-maçã, e que são duros, duros de roer. Estes dois tipos têm a sua origem por uma lado a oriente, na China e Japão com a maior parte das variedades “de roer”, e a ocidente, na América do Norte com as variedades mais adstringentes. Ambas foram possivelmente trazidas para a Europa e difundidas com o decorrer dos Descobrimentos, e hoje em dia existem muitas variedades híbridas, ou hibridizadas por enxertia. O nome caqui terá as suas origens no termo japonês amankaki, nome dado pelos nipónicos aos frutos não-adstringentes.

No caso de haver dúvidas quanto ao que este “adstringente” significa, estamos basicamente a falar daquela sensação horrível que fica na boca quando temos mais pressa que juízo e comemos um dióspiro que não está perfeitamente maduro. E quem são os culpados desta sensação de termos uma carpete na língua? Taninos, estes compostos vegetais presentes em diversas plantas, como por exemplo na madeira das Quercus (carvalhos, sobreiros), têm a particularidade de nos fazer ficar com cara feia quando demasiado presentes. Os taninos estão também associados à cor de muitas destas madeiras, são parte importante dos aromas de muitos vinhos e vinagres envelhecidos em barril, e podem ser utilizados para curtir peles de animais de forma biológica (em inglês - tanning, ah como as palavras têm sempre razão).
Mas suponho que ninguém queira perder muito tempo a apreciar o travo amargo dos taninos, vamos falar de o que fazer para termos muitos e bons dióspiros.

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O diospireiro é uma árvore que na verdade se comporta mais como um arbusto em ponto grande, precisando de bastante espaço em largura. Os seus troncos e galhos não tendem a engrossar muito rapidamente e crescem de forma desordenada quando deixados em auto-gestão. Na verdade toda esta árvore é desordenada - larga a folha e esquece-se da fruta - mas nós gostamos dela assim. Relativamente ao clima e localização não há muito por onde errar com a plantação de um diospireiro, basta ver que os nosso vizinhos espanhóis, com um clima e horas de luz muito próximos aos nossos, são os maiores produtores da Europa. De qualquer forma, é preferencial procurar um lugar com boa exposição solar durante todo o dia para os melhores resultados, adubo ajuda, bem como poda sazonal e um solo levemente alcalino. Ao contrário de outras fruteiras, e com muita pena minha, os diospireiros não são ideais para plantar em vasos. Isto porque o seu sistema de raízes é aprumado, o que, se se lembrarem de falar no assunto em Estudo do Meio, significa longo e fundo. Em contrapartida os diospireiros podem ser encaminhados em espaldar, como normalmente se faz com macieiras e pereiras, é uma técnica interessante que nunca vi a ser feita por onde tenho andado, fica a dica. Por fim, o ingrediente mais importante é a paciência, os diospireiros só costumam dar fruta após 3 anos de estabelecimento, por vezes mais, e são árvores que melhoram a produção com a idade. Até que idade mesmo?

Cem, ou até duzentas primaveras. São árvores que podem viver por longos e bons anos, e por isso mesmo são um compromisso a longo prazo. Essa caixa que vêem aí foi uma das três que apanhámos de um diospireiro que está na família há pelo menos 3 gerações, por exemplo. Podia ser melhor, podia ser pior, há registo de árvores a produzirem perto de uma centena de quilos de fruta numa só época!

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Independentemente da quantidade de dióspiros que tenhamos a sorte de ter, há sempre um percalço de que dificilmente escapamos: pássaros. Acontece que, tal como com outras frutas, os voadores gostam tanto delas como nós e fazem questão de ser os primeiros a lá chegar. A solução? Chegar lá primeiro, simples. Acontece que se colhermos os dióspiros no momento antes de começarem a ficar maduros evitamos muito do dano causado pelos pássaros, e não, não se perde sabor nenhum. Os dióspiros amadurecem muito bem dentro de casa, espalhados para não amassar. Também ao colhê-los um pouco mais cedo evitamos que os dióspiros fiquem sozinhos na árvore despida. A folhagem laranja de outono do diospireiro é uma boa camuflagem para os frutos, e pode fazer-nos ganhar algum tempo, contudo os pássaros são espertos e não querem muito saber deste disfarce. Atenção é a palavra chave aqui.

Por fim nunca é demais admirar a imagem característica do diospireiro que é tão típica desta época, uma árvore careca enfeitada por frutos (ou meios frutos…) laranja-vivo. Já houve quem me dissesse que a ideia de enfeitar as árvores de natal veio dos diospireiros, escusado será dizer que não é verdade, e essa é uma tradição para discutirmos noutra conversa (sabiam que as cerejeiras já foram utilizadas como árvores de natal??). Mas é sem dúvida uma imagem linda, a cor e o sabor da época numa só planta. E bem da época são também os resfriados e gripes, a propósito, fiquem também a saber que as folhas do diospireiro podem ser usadas como antipirético. Assim vos deixo com este fruto bem bonito, bem bom e se preciso for, ben-u-ron.

Instagram: Joaquim Ribeiro (@joaquim_ribeiro20)

 

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