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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

HÉLDER DO "BIG BROTHER" - MACHISMO, HOMOFOBIA E MASCULINIDADE TÓXICA

Cresci a acompanhar reality shows e adorava um dia apresentar um. Vi Secret Story - Casa dos Segredos. Marcava hora para me sentar e ver. Sempre considerei este tipo de programa mais um dos meus prazeres com culpa. Consoante fui crescendo, apercebi-me de que aquele tipo de programa não tinha qualquer tipo de valor educativo e comecei a apreciar mais o espetáculo em si, o desempenho dos apresentadores das galas e dos extras. Comecei a separar o espetáculo do tipo de concorrentes que, apesar de serem os protagonistas, lhes faltavam características (salvo raras exceções) que passei a admirar mais nas pessoas no geral.

No outro dia passou por mim um vídeo da edição número infinito do Big Brother Brasil, em que o apresentador, com toda a calma, informação e cautela, explicava aos concorrentes, que já estavam fechados lá desde novembro, o que se estava a passar cá fora. Abriu exceção para trazer informações "de fora" e explicar que a Covid-19 existia no mundo e todas as consequências, que até ao momento se sabia, que ele tinha para a saúde e para o mundo em geral. Fiquei espantado com a inteligência das perguntas dos concorrentes e o cuidado e respeito que tiveram em fazê-las à vez, com toda a preoupação. O apresentador estava acompanhado de um especialista que o ajudava a explicar. Uma das concorrentes era médica e explicou ela mesma a situação aos colegas sobre cuidados a ter numa situação de pandemia.

Sempre tive consciência de que o formato Big Brother era diferente do formato Secret Story. Pelo tipo de espetáculo, pelo tipo de jogo, mas sobretudo pelo tipo de concorrentes. Em Portugal, caiu-se no erro de misturar conceitos. De repente, os concorrentes que estávamos habituados a ver no formato Secret Story aparecem noutro programa onde só muda o nome. E que noutros países vemos com outro tipo de pessoas. 

Podia-se reunir outro tipo de pessoas. Podia-se reunir pessoas com conteúdo, que gostam de conversar e discutir temas, dos mais básicos aos mais elaborados, mas parece que os critérios de seleção passam pela peixeirada e pela ignorância. Escolhi não acompanhar o Big Brother desta vez. Até que, as redes sociais, me puxaram para o assunto Hélder.

BB2020: Hélder nomeado como consequência de «atitudes sexistas e ...

O Hélder. O concorrente que disse que "preferia ser mulherengo do que ser assim", apontando com a cabeça para o único concorrente da casa que era assumidamente homossexual. A colega a quem ele se dirigia pediu-lhe para ter cuidado com as palavras, alertando-o para o comportamento. Ele disse que estava a brincar, para ninguém levar a mal e que até gostava muito de falar com "pessoas como ele" que são os melhores conversadores que se pode ter e que são super amigos e blá blá blá.

Blá, blá, blá. 

O mesmo Hélder que quando viu ao vivo uma concorrente, a Jéssica, no confessionário parou descaradamente e andou à volta dela, justificando para o Cláudio Ramos, com quem conversava, que "lhe estava a tirar as medidas", com um olhar de superioridade nojento. Que passou a mão no banco onde ela se tinha sentado e disse que ela até já estava molhada. Isto porque, escusado será dizer, este Hélder se acha claramente a última uva da vindima.

Confrontado pelo Cláudio Ramos em confessionário, numa conversa que estava a ser vista pelos restantes colegas, o Hélder justificou-se, dizendo que não tem nada contra "esse tipo de pessoas". O Cláudio alertou-o para o uso da expressão "esse tipo de pessoas" e o Hélder disse que não gostava de se referir ao Edmar como homossexual porque não queria, por outras palavras, pôr rótulos nas pessoas. E disse mais. Disse pior. Disse a frase preferida de um homofóbico: "não tenho nada contra, até tenho muitos amigos que o são". Sublinhou que adorava falar com "esse tipo de pessoas". Neste preciso momento, um concorrente na sala, o Diogo, fica notoriamente constrangido. O Hélder acabou por chorar, abraçado aos colegas, sob desculpa de ter sido mal-interpretado e de ser um incompreendido.

Primeiro ponto: orientação sexual não define personalidade. Há pessoas boas e pessoas más com todo o tipo de personalidades. Nem todos os homossexuais são bons conversadores só por serem homossexuais. Nem todas as mulheres ficam molhadas por verem o Hélder (acredito que até pouquíssimas). O Hélder não é ninguém, e repito, ninguém para medir as curvas de outra pessoa, porque os critérios dele não são os de toda a gente, nem sequer são para expor publicamente relativos a uma pessoa que ele acaba de conhecer. O Hélder preferiu ser engraçadinho sem sequer pensar no contrangimento que poderia provocar na rapariga. Mostrar o quão macho é publicamente pesou-lhe mais no prato da balança. Avaliar o corpo de uma pessoa como se fosse um objeto foi prioritário para ele. 

BB': Fascinado com silhueta de Jéssica, Hélder "tira-lhe as medidas"

O Hélder representa a masculinidade tóxica que abunda em Portugal. Pesquisem. Pesquisem sobre o conceito, e vão revê-lo em muitas pessoas que parecem confiantes à primeira vista, que fazem piadas sobre homossexuais, mas, sobretudo, sobre mulheres gratuitamente, por tudo e por nada. Que se acham os maiores da praia deles. Que não escondem e fazem questão de dizer com quantas dormiram, o que valem na cama, enfim, deixar publicamente a negrito as suas supostas "qualidades másculas" para esconderem a sua estupidez e falta de autoestima. O ego dessas pessoas é mais frágil do que um dente-de-leão. Muitas vezes nem sequer sabem da gravidade porque desconhecem conceitos, porque tiveram o rei na barriga a vida toda, porque sempre foram socialmente privilegiados. Depois acham a humilhação alheia engraçada. Por pura ignorância.

Sabem o mais preocupante disto tudo? O Hélder está a ser defendido! Está a ser defendido pelo próprio Edmar, o colega homossexual. O Edmar está a sofrer de um misto de uma espécie de síndrome de Estocolmo com medo da eventual popularidade do Hélder cá fora. Porque o Edmar sabe perfeitamente o que esconde aquela "brincadeira do Hélder". Com certeza e infelizmente já deve ter sofrido com outras brincadeiras do género na vida. Mas não sabe até que ponto o pode prejudicar revoltar-se contra ele. Ele sabe que há muita gente cá fora que pensa como o Hélder. Até as raparigas da Casa, mesmo confrontadas com o vídeo dele e da Jéssica no confessionário, continuam a dizer que é um exagero e a defender a faceta brincalhona do Hélder. O Hélder já tem idade suficiente para saber que quando se faz merda repetidamente, a desculpa da "brincadeira" deixa de colar.

O Hélder ficou à mercê dos espectadores. Ou seja, as pessoas vão votar e no domingo o Hélder fica a saber se sai ou não da casa pelo seu comportamento claramente discriminatório e nojento. O Hélder devia ter saído na hora. Há quem diga que o Hélder não é "xenofónico", como disse uma super entendida nestes conceitos lá. Como ainda há quem tenha bom senso, uma concorrente de seu nome Iury ainda questionou "Incomoda-te quando um casal se beija na rua?". O Hélder respondeu "Um casal normal, não". Disse ainda  "se eu estiver sozinho, [um casal homossexual] não me incomoda. Com um filho, não sei, acho que ia ser estranho", respondeu o Hélder. E a Iury, constatou o evidente: "Então, desculpa, mas tu és homofóbico". Falhaste, Iury. Não devias ter pedido desculpas. Porque, de resto, parabéns por teres enfrentado.

Isto é perfeitamente natural a partir do momento em que as pessoas não têm noção da gravidade da situação. Estamos a falar de um programa onde um outro concorrente assumiu na sua VT de apresentação ser "um bocadinho homofóbico". Homofobia é crime. Como é que as pessoas reagiriam se uma pessoa fosse para lá dizer "sou um bocadinho ladrão" ou, na pior das hipóteses "sou um bocadinho assassino" ou "sou um bocadinho pedófilo"? Ah, pois é. As dimensões são diferentes, mas crimes eles são todos. 

Big Brother: Confrontado por Cláudio Ramos, Hélder pede desculpa a ...

Estas coisas não se podem aceitar! Estes discursos de ódio têm de ser filtrados. As pessoas precisam de ver na televisão representatividade, pessoas reais, de todas as formas e feitios e não gentalha cheia de peito que inferioriza outras pessoas por ignorância. Há uma linha que separa a opinião da falta de respeito. A opinião é livre, a falta de respeito não. 

A Jéssica sentiu nojo das palavras do Hélder. Mas não o assumiu porque a sociedade já a habituou a essas atitudes. A sociedade aplaude, até, essas atitudes. O Edmar sentiu-se claramente discriminado, como já deve ter sido muitas vezes na vida dele. Mas escondeu-o. Escondeu-o por medo. A pior coisa que o medo pode fazer nestes casos é levar as vítimas a proteger quem lhes fez mal. 

O Hélder devia ter saído na hora. Pelo menos que saia no domingo. Se não sair, é preocupante. Porque quem vota está a defendê-lo. E isso é pior do que as vítimas defenderam-no. Porque aí, a maioria está a compactuar com um crime. Com a masculinidade tóxica, com o machismo, com a homofobia, com o nojo em que a nossa sociedade se está a transformar.

O Hélder devia ter saído na hora. E devia ter sido o Cláudio Ramos, uma pessoa "daquele tipo", a expulsá-lo de lá, sem medos. O Cláudio teve demasiada calma e deixou que o Hélder se enterrasse ainda mais. E acho que todos os portugueses merecem um pedido de desculpas por o concorrente ter continuado a dar canal quase durante uma semana depois de ter tido a postura que teve. Estes discursos de ódio têm de acabar. Mas, para isso, é importante que, em primeiro lugar, deixem de ser aplaudidos.

 

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