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O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

O BLOG DO VILAS

POR LUÍS VILAS ESPINHEIRA

"The Crown", provavelmente a melhor série que já vi

Quem me conhece sabe que sempre preferi séries de ficção. O que mais aprecio nas histórias no geral (tanto em livros, como filmes, como séries), é a imaginação de quem as escreve. A ficção não tem limites e eu, como autor e criador de histórias, gosto de apreciar a criatividade dos outros.

Não sou monárquico. Ideologicamente acho que os nossos representantes devem ser eleitos e não ter poder por via do berço. Ainda assim, sempre admirei e considerei as monarquias, sobretudo a britânica, um prazer com culpa. Não defendo o regime em si, mas gosto do glamour, dos flashes, do protocolo e de tudo o que envolve os deveres reais.

Como sempre me interessei pelo meio, mesmo antes de ver a série, já sabia qual era o rumo de algumas personagens. Já tinha traçadas algumas personalidades em mim e já conhecia os casamentos, polémicas, filhos e netos e até a ordem na linha de sucessão. 

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Importante referir que antes de ver a série é necessária uma contextualização histórica relativamente aprofundada não só no que diz respeito ao Reino Unido e à Europa, como também no mundo. Eu fazia pesquisas no final de cada episódio. É mais fácil estar atento aos pormenores e apreciá-los se gostarmos de História. De sublinhar o aparecimento de figuras hitóricas para além das da família real, como Winston Churchill e os Kennedy, brilhantemente interpretados.

A série conta a história da Rainha Elizabeth II (Claire Foy / Olivia Colman), desde que se casou com o Príncipe Filipe da Grécia e Dinamarca, Duque de Edimburgo (Matt Smith / Tobias Menzies).

Elizabeth, enquanto princesa, era filha de George VI, que veio a tornar-se rei por abdicação do seu irmão, Edward VIII. Edward abdicou do trono por se ter apaixonado por uma mulher casada e já divorciada um vez e a religião da coroa, o Anglicanismo, não permitia o casamento com pessoas divorciadas. Como chefe dessa religião, o monarca tinha de escolher entre o amor e o dever. Abdicou, assim, a favor do irmão, porque não tinha filhos. Com George a subir ao trono, Elizabeth passa de terceira a segunda na linha de sucessão ao trono britânico, ou seja, após a morte do seu pai, ela passaria a ser Rainha do Reino Unido.

Ao contrário do que é costume, Elizabeth não nasceu como sendo filha de um rei, mas sim neta e, mais tarde, sobrinha. Ela não nasceu para se tornar rainha. O tio trocou-lhes as voltas e ela teve desde cedo de se habituar a uma nova forma de vida. 

Ser mulher naquela altura não era fácil. Quando casou com Philip, Elizabeth teve de se impor perante as regras patriarcais e decidir que, a partir dali, os seus descendentes adotariam o apelido da Família Real, ignorando o nome da casa de Philip. Philip chegou até a dizer, na série que era "o único homem naquele país que não tinha o direito de dar o seu nome aos filhos".

Quando o Rei George VI morre, Elizabeth ascende ao trono e o maior desafio da sua vida começa a partir daí.

Na primeira temporada vemos o início da construção de Elizabeth enquanto rainha. Parece fácil. Mas o início do seu reinado teve vários obstáculos: um marido de convicções mais firmes do que as dela, uma mãe conservadora, um país para agradar, uma família complicada e o dever. Sempre teve de escolher entre pensar consoante as suas convicções, em nome da coroa, ou receber e aceitar os conselhos constantes da Rainha-Mãe, também Elizabeth, mas que não governava por ser consorte de um rei e não monarca por via hereditária. Tinha o dever de cumprir, aparecer com um sorriso no rosto como a mulher mais poderosa de um país e fazer com que quem olhasse para ela não se apercebesse de que era condicionada por todos os lados.

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Claire Foy e Math Smith interpretaram o casal real de forma exímia.

Ele forte e decidido, o protetor da rainha, sempre com uma assertividade gelada. Apreciador de prazeres luxuosos e peculiares. Smith conseguiu interpretar brilhantemente o Duque de Edimburgo em todas as suas facetas: a de conquistador, a de marinheiro, de marido da rainha, de príncipe exilado da Grécia. As suas expressões contavam histórias e os seus silêncios eram inquietantes.

Já Foy, fez uma Elizabeth inocente, mas ao mesmo tempo decidida e com uma pontinha de ironia brilhante. O que é admirável em Claire Foy é a perceção por parte do espectador de quando a personagem fingia estar agradada com algo. Através da expressão (e de todo o contexto, claro), era fácil entender se Elizabeth estava triste, desconfiada, contente, confortável ou desconfortável com alguma situação. É admirável a forma como ela mantém a postura em todas as situações familiares, qualquer pessoa teria vontade em dar um grito da janela do Palácio de Buckingham para todo o Reino, mas ela manteve sempre a sua posição hirta e digna.

Na segunda temporada, Elizabeth já se torna mais convicta e vemos uma faceta de bully de Philip em relação sobretudo às vestimentas e aos penteados que Elizabeth exibia em eventos reais importantes. Essa parte foi de partir o coração e quase cortava o encanto de cenas íntimas e de amor profundo entre os dois. Mas toda aquele cenário e o amor que se vê ali, consegue ser superior ao temperamento frio de Philip.

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Olivia Colman, na terceira temporada, já é uma rainha mais convicta, por vezes fria, que põe muitas vezes o seu lado humano de parte, favorecendo as rígidas obrigações da coroa e do protocolo. Na terceira temporada, Elizabeth já é uma rainha com experiência, já teve sete ministros a governar e manteve-se sempre como representante da coroa e chefe de estado do Reino Unido. Nesta fase, os problemas familiares crescem. Deixa de ter não só um tio excêntrico, uma mãe conservadora e uma irmã rebelde para passar a ser também mãe de dois jovens adultos, o Príncipe Charles e a Princesa Ana e de duas crianças, o Príncipe Andrew e o Príncipe Edward. Ser chefe de estado e chefe de família tornam-se dois deveres aparentemente inconciliáveis, mas que ela tenta cumprir sempre com o máximo de dedicação possível.

A imagem de toda a série é uma clara referência à perfeição: os cenários são brilhantemente simbólicos e perfeitamente simétricos, mostrando constantemente diferenças sociais entre aquilo que se vive dentro do Palácio e o que se vive fora dele, na perspetiva do povo. 

É praticamente impossível falar de The Crown sem falar nas referências à vida do Príncipe Philip e da Princesa Margaret, irmã mais nova da rainha.

O história de Philip antes de se tornar consorte de Elizabeth é retratada na segunda temporada da série e justifica o porquê de ele ser tão rígido e firme. Cortou relações com o pai e a mãe foi internada e ele desde jovem que teve educação com base militar, longe das figuras que o criaram. Sempre foi um miúdo rebelde e considerado muitas vezes arrogante pelos seus colegas. Era solitário e assertivo, sofrendo grandes perdas familiares e rasteiras da vida que o tornaram ambicioso e gelado. 

A Princesa Margaret sempre representou a juventude e a evolução da sociedade. Os amores e desamores dela foram brilhantemente interpretados tanto por Vanessa Kirby como por Helena Bonham Carter, a eterna Bellatrix Lestrange. No que diz respeito ao Duque de Edimburgo e à Rainha, prefiro as interpretações dos atores mais novos, mas no caso da Princesa Margaret é muito difícil de decidir. Kirby mostra uma Princesa rebelde, sempre de cigarro na mão, lindíssima e extremamente sedutora, que, ao contrário da irmã, adora ser venerada e ainda mais as luzes da ribalta. Tem uma confiança extrema, que esconde uma falta de autoestima especial. Para terror da Rainha-Mãe e da irmã, Margaret tem sempre amores proibidos. O primeiro é funcionário real, que acabou por não dar em nada, porque ele era divorciado. A decisão do acontecimento daquele casamento era da coroa, representada por Elizabeth II, que foi tida como má da fita pela própria irmã.

Margaret era boémia, eloquente, uma diva da Família Real. A sua beleza não deixava ninguém indiferente. Quando se apaixona por aquele que viria a ser o seu primeiro marido, Antony Armstrong-Jones (Mattew Good / Ben Daniels), ninguém está à espera das cenas intensas que os dois protagonizam. Tony era um bon vivant, apreciava sexo até com várias pessoas ao mesmo tempo (homens e mulheres) e tinha, segundo consta, engravidado uma outra mulher antes de assumir o relacionamento com a Princesa. As cenas de Margaret com Tony tem das melhores frases de toda a série, sobre a vida, sobre o amor e sobre o dever. 

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Helena Bonham Carter interpreta a Princesa Margaret na fase mais difícil da sua vida: o divórcio. Continua com a sua ironia extrema, com a sua baixa autoestima disfarçada pela sua arrogância e beleza, mas sempre de cigarro e copo de whisky na mão. Atrevida, sedutora, desafiadora, provocadora, inteligente e talentosa. Exatamente o oposto da Rainha, sua irmã. É adorada pelo povo e como é mais dada ao spotlight, chega a atingir níveis de popularidade incríveis. Ignora de forma requintada o protocolo e às vezes esquece-se da postura que o seu estatuto exige. Quebrar o protocolo é fácil. Mas Margaret até isso conseguia fazer com classe.

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Concluo, assim, que duas palavras para descrever esta série são, sem dúvida, pormenor e minúcia, tal como uma série sobre a realeza tem de ser. Parece que os astros se alinharam para que esta equipa, este elenco e estes cenários se encontrassem todos nestes anos em que a série foi produzida. Está incrivelmente detalhada, historicamente fiel e com interpretações brilhantes. E atenção: o intuito desta série não é tornar a Família Real Britânica num conjunto de heróis, muito menos de mostrar o seu lado mais negro. É mostrar a sua faceta humana, com todos os defeitos e qualidades inerentes à sua condição.

Não sei se é a minha série preferida. Mas é com certeza a melhor série que já vi.

 

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